terça-feira, 29 de junho de 2010

Criando filhos virtuais

Cientistas realizaram uma pesquisa na Bélgica, entrevistando 15 mulheres. Descobriram que um terço delas considera a opção de congelar seus óvulos, como uma espécie de garantia para a futura maternidade, enquanto se concentram em suas carreiras. Investigação semelhante foi feita na Grã-Bretanha com 200 estudantes universitários, revelando a mesma tendência. De cada 10 estudantes de Medicina 8 consideram a possibilidade do congelamento, sendo que entre os atuam nas áreas de Educação e Esportes o número seria de 50%. As informações aparecem em matéria na BBC-Brasil.
Os estudos estão muito longe de poderem ser considerados como uma conclusão científica definitiva, ou mesmo como uma tendência geral. O número de entrevistados é pequeno e restrito para um grupo específico de pessoas: as que possuem nível universitário de ensino e uma carreira em desenvolvimento ou, pelo menos, o vislumbre de uma. Muitas pesquisas já indicaram que os índices de maternidade são menores entre as pessoas com esse perfil. As pesquisas divulgadas são interessantes, contudo, para pensarmos nos impactos dos avanços da ciência na organização da sociedade.
O mercado de trabalho exige hoje profissionais com capacidade de estarem sempre atualizados, com dinamismo para acompanharem as transformações das tendências. Entre o tempo que as pessoas passam no seus empregos e o tempo que precisam dedicar para ficarem atualizadas o que sobra é muito pouco. Para tal parcela menor é que ficam relegados os assuntos da vida pessoal e íntima. A questão do congelamento dos óvulos reflete mais um aspecto dessa realidade, no qual a vida profissional não é somente o oposto da pessoal, é sua inimiga.
Daí toda nossa virtualidade. As novas gerações precisam cada vez mais do mundo virtual, que podem acessar nos poucos instantes de folga ao longo de um dia de trabalho. É na velocidade das mensagens postadas em poucas palavras (abreviadas) e linhas que a sociabilidade se mantém. Não temos mais o tempo para longas conversas ao telefone, ou para sentar e escrever cartas, ainda que no computador. Quantas obras surgiram da troca de correspondências entre escritores e intelectuais! Revelando a intimidade da construção do conhecimento, do desenvolvimento de novas ideias, humanizando seus autores. Parece que realmente não as teremos mais...
Mas a maternidade não pode ser virtualizada. Não sem o risco de fazermos como aquele casal de sul-coreanos: entretidos em criar uma filha no mundo virtual esqueceram de alimentar a verdadeira, de três meses, que acabou morrendo de inanição. A solução que surge então é adiar, que é muito melhor do que negligenciar, esperando que a ciência possa superar as dificuldades da concepção.
O que será desses futuros pais e mães quando resolverem tornar o virtual em real? Quando finalmente fertilizarem os óvulos? Será que vão deixar para as escolas, transformadas em centros de formação integral dos jovens, a responsabilidade por tudo? Se for isso creio que vivemos agora em tal futuro! Já temos escolas prometendo aos pais aquilo que não podem, realmente, entregar: um espaço integral para seus filhos, onde a criança ficará por todo o dia, recebendo toda a educação necessária. Esquecem de dizer que é impossível atingir todos os alunos dessa forma. Imaginem um ambiente escolar com mil alunos e com 40 profissionais trabalhando. Desses 40, apenas cinco estarão dedicados ao entendimento especializado das questões emocionais diversas dos jovens, os demais tendo que lidar com todas as demais funções da escola. Teremos então a divisão de uma "mãe" para cada duzentos filhos! No final será a atuação direta dos pais que fará a diferença, tendo sido a escola seu complemento (a tal parceria família/escola de que tanto se fala).
O mundo virtual e tecnológico possuí inúmeras vantagens e pontos positivos. Temos que evitar, no embate entre a vida profissional e a pessoal, a transformação de nossos filhos em mais um problema incômodo a ser resolvido.

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