domingo, 5 de novembro de 2017

Em um copo de cerveja

Conversas que nos fazem entender os brasileiros... 9 e pouco da manhã de uma sexta-feira, a universidade emendou o feriado da quinta então fui levar o carro para lavar, algo que só faço uma vez a cada dois anos. Deixo o carro com o pessoal da lavagem e vou me sentar para esperar, ler um pouco mais (como sempre). No local há um boteco/restaurante, com uma mesa de bilhar. Sentados à sombra de uma árvore alguns homens conversavam, não eram parte da equipe de lavagem. Chega outro homem, sujeito grande, cheio de bomba como dizem, e vai logo brincando com os demais que estavam na sombra da árvore. Engatam conversa e rola uma cerveja tomada na mesa de bilhar. Começam a reclamar da situação, do preço de tudo, dos impostos que pagamos, dinheiro que acaba na mão do governo e dos políticos, da dificuldade de se arrumar trabalho. Usaram a situação do dono do boteco/restaurante, que tinha que pagar muitas contas e impostos para manter o negócio. Um deles, um cara também grande mas sem bomba, conta que sua mulher reclamou um dia que não conseguia dormir por causa do ronco do companheiro. Ele revidou a reclamação dizendo que também não dormia, pois a esposa não estava trabalhando e ele era responsável por arrumar dinheiro para pagar todas as contas da casa, que eram muitas preocupações na cabeça. O rapaz grande bombado concluiu: "por isso que um homem tem mesmo que perder a cabeça". Nova cerveja. Eu sentado em um canto, pensando que ainda não eram 10 horas da manhã e os caras estavam ali, parados, tomando cerveja, enquanto a esposa do sujeito grande não bombado devia estar trabalhando cuidando da casa. Pensei também no dono do boteco/restaurante, que não estava presente, enquanto eu observava, na cozinha, uma senhora correndo com o preparo do almoço ao mesmo tempo em que entregava as cervejas. No Brasil as pessoas percebem que algo está errado, mas não sabem o que é, então falam dos políticos, do governo, dos impostos, coisas que no fundo não entendem, mas que ditas e acolhidas em grupo reforçam a sensação de sabedoria, ao mesmo tempo em que não são capazes de perceber as mulheres trabalhando ao seu redor enquanto eles estão parados na manhã de uma sexta-feira reclamando da vida em um copo de cerveja.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A entrevista que nunca saiu

Fui procurado para uma breve entrevista sobre a reforma trabalhista. Eu faria a crítica e alguém faria a defesa e tudo deveria sair em um blog de um profissional da mídia conservadora... Sei que essa afirmação se aplica à praticamente todos no atual cenario, mas enfim! Recebi as perguntas por mensagem e as respondi depois da greve geral. Entrei em contato e coloquei apenas uma condição para minha participação, totalmente não remunerada como sempre: minhas respostas precisavam ser publicadas na íntegra, pois só faziam sentido deste modo. Bom... Repentinamente o interesse sumiu! Mas como meu trabalho gratuito já estava realizado segue para apreciação! Eram três eixos a serem respondidos: 1- elencar os elementos prejudiciais da reforma aos trabalhadores; 2- avaliar as relações entre a crise política e a reforma trabalhista; 3-  refletir sobre a necessidade das reformas para promover maior harmonia nas relações entre patrão e empregado. As respostas estão em sequência compondo um único texto.

(1) Primeiro é preciso começar por lembrar o perfil do congresso nacional. com as bancadas empresarial e ruralista sendo as predominantes, com 190 e 139 deputados respectivamente. Sindicalistas são apenas 46. Então o discurso de uma lei ou políticas que somente favorecem os trabalhadores não se sustenta na própria formação histórica do Congresso, que já foi inclusive mais elitista em outros momentos. O problema não se encontra somente nas novas leis aprovadas isoladamente, mas no seu conjunto geral. Basicamente todos os aspectos da CLT foram flexibilizados: jornada de trabalho, férias, hora de almoço, tudo pode ser negociado. Chegaram ao ponto em que mulheres grávidas poderão atuar em atividades insalubres bastando para isto um simples atestado médico. Em seu conjunto as novas regras não eliminam a CLT mas basicamente a colocam de lado, ela deixa de ser aplicada. Não é eliminada, mas alguém consegue mesmo imaginar algum patrão querendo utilizar a CLT para seus contratos de trabalho quando ele poderá simplesmente negociar diretamente com o funcionário, sem nem mesmo ser necessário a mediação de um sindicato? Somente em um reino de fantasia, não em um país que ainda conta com trabalho escravo! O que significa para o trabalhador? Que ele perde, na prática, o acesso à assistência jurídica do sindicato ao negociar diretamente com o patrão, o qual certamente ainda terá a assistência de advogados. Imagine alguém que não conhece seus direitos e não possui assistência jurídica sentando para assinar um acordo com um patrão completamente assessorado! E como será um formato legal de contrato a justiça não poderá fazer nada! A CLT não poderá ser invoca pois prevalecerá o acordado previamente entre as partes. Ao invés de termos realizado uma discussão sobre as condições trabalho das novas profissões simplesmente optaram por nivelar tudo! Um operário de chão de fábrica não tem as mesmas condições de trabalho e as mesmas necessidades de alguém que trabalha à distância, com computador! E certamente não ganha o mesmo salário! O projeto aprovado trata desiguais como se fossem iguais e isto é um retrocesso enorme.
(2) O atual momento político apenas reforça a ilegitimidade das medidas aprovadas. Estamos em uma crise política enorme, com um presidente com 4% de aprovação e que chegou ao poder em um golpe. Sem a queda do governo Dilma dificilmente tais medidas estariam sendo aprovadas. E não são necessárias em sentido nenhum. É tudo uma grande farsa! Os políticos que estão no governo são praticamente os mesmos que estavam antes! Se as políticas de Dilma estavam erradas foram eles que as aprovaram! E foram eles mesmos que pararam de votar qualquer coisa no auge da crise política, inviabilizando qualquer medida de contenção da crise econômica. Agora aparecem gritando que é tudo responsabilidade do governo anterior, que já caiu há mais de um ano! Mas eles eram o governo anterior! Sempre foram. E a promessa dos empresários que hoje defendem a reforma trabalhista era, justamente, que a recuperação econômica aconteceria em um mês após a derrubada de Dilma. Agora defendem que o trabalhador é o problema, que ele custa muito caro. Só não vemos qualquer um deles falando em aumento salarial!
(3) Harmonia? Onde? O que está acontecendo é uma chantagem, uma ameaça. Os defensores da reforma afirmam, sem disfarçar, que é melhor flexibilizar do que perder o emprego! Que espécie de harmonia é essa? Você aponta para o trabalhador e diz que a legislação trabalhista deve mudar ou ele vai perder o emprego e encerra a discussão, sem dar espaço para nenhuma demanda dos próprios trabalhadores! É o retrato de como serão verdadeiramente as negociações diretas entre funcionário e patrão! E se a reforma não passar o que as empresas vão fazer? Vão demitir todo mundo? Vão deixar de explorar o mercado consumidor brasileiro? É essa a ameaça? Qual é o patrão que vai, de fato, contratar mais trabalhadores somente pelo fato de que o preço da mão-de-obra caiu? Ele tem um trabalhador realizando uma certa função e vai contratar dois para o mesmo trabalho só pelo fato dos custos trabalhistas terem diminuído? Empregos são gerados com aumento do mercado, a produção aumenta quando a demanda aumenta e não quando o trabalho é mais barato! Na verdade um trabalhador ganhando menos e sendo responsável pelo recolhimento de seus próprios direitos é um consumidor com menos dinheiro! Para os grandes empresários, que hoje estão felizes com o aumento das exportações, isso não é um problema pois seu mercado está fora do Brasil. Para aqueles que dependem do mercado interno não há nenhuma melhoria. A legislação trabalhista poderia ser debatida, como qualquer lei, mas jamais do modo como foi feito, por um governo sem qualquer apoio popular. E certamente jamais culpando a justiça do trabalho, os sindicatos e os trabalhadores! E, não esqueçamos, em toda essa vergonha, ninguém falou absolutamente nada sobre melhorar os salários, sobre saúde e educação pública. Nunca estivemos mais distantes de qualquer harmonia.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Memória de quando tínhamos direitos...

Lembrei da madre Maria. Era diretora do colégio religioso onde estudei com bolsa pois minha mãe trabalhava ali como professora. Madre Maria era rigorosa. Quando ficava sabendo que um professor não tinha matriculado os filhos no colégio chamava o mesmo para conversar. É que ela achava um absurdo quando algum dos seus professores não matriculava ali seus filhos. Dizia que era a melhor prova da qualidade de ensino de uma escola: que todos os professores tivessem seus filhos estudando nela! E todos tinham bolsa, conforme determinava o acordo coletivo. Lembrei dela, muito, quando vi que o sindicato patronal não assinou a convenção coletiva dos professores, que venceu e deixou de valer levando com ela a obrigatoriedade das bolsas para filhos de professores (além de vários outros direitos). Palmas para você, professor, trabalhador, que aplaudiu o golpe! Imbecil.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Generalizações

As redes sociais ajudaram a proliferar categorias genéricas que não dizem nada. Nenhuma novidade, as pessoas sempre fizeram isso. Falamos "os brasileiros", "os americanos", "os japoneses", "os alemães", como se todos os cidadãos destes países fossem iguais, pensassem igual. Mas creio que a principal categoria genérica de hoje é a dos "petistas". Sempre que alguém quer criticar algo na política, na direita e na esquerda, surge a categoria. Criticou o desmonte da constituição promovido pela ação do Moro? Petista! Elogiou o governo Lula? Petista! Pediu #ForaTemer? Petista! Falou em golpe? Petista! Daqueles identificados com a direita mais furiosa não se espera outra coisa mesmo além disso. Mas o interessante é o discurso que circula nas esquerdas. Toda hora aparece alguém para afirmar que "os petistas" precisam parar de acreditar que o PT não fez nada de errado. Que a esquerda precisa se libertar do PT. Que após cada crítica feita ao atual governo ilegítimo precisa afirmar que "não é petista", já assumindo que a expressão assumiu carácter generalizante de algo ruim... Interessante. Não conheço nenhum petista ou simpatizante, do meu círculo, que não seja crítico do que aconteceu no PT nas últimas décadas. Que não veja com tristeza nomes ligados ao partido, muitas vezes nomes obscuros para a grande maioria dos militantes, envolvidos em denúncias diversas. Que não tenham se decepcionado com certas decisões do partido. Mas para quê saber disso! Melhor fazer como a direita e generalizar. Ou então falam para a pessoa abandonar, partir para outra... Interessante que isso tudo vem acompanhado de uma crítica bem pouco reflexiva sobre a questão da política de coalizão. É evidente que existem problemas em tal modelo, mas são problemas sempre presentes na política, em qualquer sistema político! E qual é alternativa oferecida? Na direita ressurge dos esgotos o discurso da ditadura, do eu mando, eu bato, eu mato. Em setores da esquerda um purismo ideológico que imagina que vamos conseguir passar para algum tipo de comunitarismo de assembleia... E o diálogo, o respeito ao diverso, a busca de entendimento em meio às diferenças não é justamente a formação de coalizões? A corrupção como fenômeno social transcende os modelos de governo, pois pode e está presente em qualquer lugar. É verdade que o PT precisa se recriar, mas não é menos verdadeiro isto para todos os demais partidos de esquerda, para todos que estão indignados com o desmonte de direitos tão duramente conquistados. Tempo de recriarmos a nós mesmos e retomarmos, em todos os espaços, o que nos foi roubado.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Nas paredes

Em toda a história, toda mesmo, desde que o homem começou a se expressar, ele pinta paredes. Nas cavernas. Em Roma, no coliseu, os gladiadores escreviam nas paredes seus recados aos poderosos... Nas ruas da França da Revolução. Em todas as guerras mundiais. Em toda trajetória do movimento operário. Nem toda pixação é um ato aleatório de destruição do espaço público. Ela é também uma forma de manifestação, de setores populares tomarem o espaço público com seu recado. Uma forma de se expressar quando tudo falha. Mas aqui no Brasil juntamos tudo num pacote bipolar: grafite é bom/pixação é ruim. Como se toda pixação fosse a mesma coisa. Como se a arte fosse limitada à uma forma única de se expressar. E dá-lhe tinta em tudo. Como se o cinza do Doria também não fosse uma forma de expressão do autoritarismo da atual prefeitura de São Paulo. Por que cinza? Por que não várias cores? É...

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ao invés...

Ao invés de combater a corrupção o Brasil optou por acabar com as estatais, ao invés de uma reforma política o Brasil optou pelo autoritarismo, ao invés de acabar com o corporativismo o Brasil optou por acabar com os funcionários públicos, ao invés de investir em Pesquisa e educação o Brasil optou por acabar com as universidades públicas, ao invés de taxar as grandes fortunas o Brasil optou por acabar com direitos dos mais pobres... Era sobre tudo isso e muito mais que estávamos falando quando as panelas soaram e os patos dançaram nas ruas, deixando todos surdos à razão e abertos para o fascismo fácil e burro dos Bolsonaros.