sábado, 17 de julho de 2010

O que significa liberdade e democracia para os defensores oficiais da liberdade de imprensa?

Matéria divulgada no portal UOL apresenta opinião de Alejandro Aguirre, presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), classificando os seguintes governantes como antidemocráticos:
  • Hugo Chávez (Venezuela)
  • Cristina Kirchner (Argentina)
  • Rafael Correa (Equador)
  • Evo Morales (Bolívia)
  • Daniel Ortega (Nicarágua)
  • Porfírio Lobo (Honduras)
  • Lula (Brasil)
Argumenta que apesar de terem sido eleitos democraticamente não se comportam de tal maneira, indicando o que classifica como tentativas de limitar de liberdade de imprensa bem como as propagandas oficiais desses governos como provas.
Uma das coisas que me incomoda em toda a discussão atual sobre a liberdade de imprensa é justamente a freqüência com que os porta-vozes da grande imprensa empregam o termo democracia. Pois os grandes grupos que atuam na imprensa são a própria antítese da democracia. São empresas de capital privado, nós não escolhemos seus administradores. Ao mesmo tempo existem cada vez mais relatos de jornalistas destacando o controle sobre o que deve ou não ser publicado nas suas redações. Ao contrário do que é propalado a imprensa divulga somente o que atende aos seus interesses comerciais e certamente políticos. Basta verificar que, no geral, os grandes jornais divulgam basicamente as mesmas notícias, com enfoques que indicam a tendência política de quem autorizou a divulgação das mesmas.
Se a democracia implica na participação livre do povo por que tanta resistência em que sejam criados os mecanismos públicos de regulação da imprensa? Essa não é justamente a grande questão da democracia? A gestão nas mãos do povo?
O grande fato é que os grupos da grande imprensa atuam como um poder paralelo dentro de todos os Estados. São eles que transformam os fatos cotidianos em notícias, empregando critérios muitas vezes duvidosos. Lembro aqui de fato ocorrido em 2004. O jornalista Larry Rohter publicou matéria no The New York Times afirmando haver uma preocupação nacional no Brasil com o aumento de consumo de álcool pelo presidente Lula. As "fontes" utilizadas eram comentários e piadas de políticos da oposição ao governo. O que vimos então foi a revolta da imprensa nacional com a possibilidade de expulsão do jornalista (que atuava aqui como correspondente internacional do jornal norte-americano) discutida no governo, justamente por supostamente afrontar a liberdade de imprensa. Ainda que se possa considerar que a reportagem em si apenas divulgava a opinião expressa por um grupo de pessoas, tratou-se de um exemplo claro de que as informações que recebemos não são realmente verificadas pelos redatores dos grandes jornais (um resumo da polêmica pode ser lido aqui). E desse modo boatos e piados podem se tornar verdades. A liberdade de informar não deve ser confundida com a liberdade de difamar.
Voltando ao assunto inicial aqui tratado temos que considerar que existe também o direito, ou deveria existir, democrático de podermos criticar a imprensa. Todos nós, inclusive os membros do governo, sem com isso sermos tachados de antidemocráticos. O pressuposto central da democracia não é realmente somente a expressão da opinião pelo voto. Mas é a liberdade de participar do debate público, irrestrita para todos os cidadãos, acompanhada pela responsabilidade sobre aquilo que falamos.
A questão da propaganda oficial é também complicada. Sempre tento entender qual é a diferença real entre a propaganda de um produto qualquer que uma empresa tenta nos fazer comprar e a publicidade oficial que tenta nos convencer de que os governantes estão realizando seu trabalho. Comprar um jornal, uma revista ou acessar um site repleto de propagandas dos mais diversos itens é melhor do que visualizar propagandas oficiais do governo como? Outro dia estava lendo uma notícia no site do Le Monde quando minha filha de cinco anos se aproximou. Eu estava entretido com a notícia, mas o olhar dela foi atraído pelas imagens do site. Entre eles havia a propaganda de um site de "relacionamentos" adultos, no qual havia a animação do desenho dois cachorrinhos cruzando. Com toda ingenuidade ela me apontou a animação, afirmando que era muito bonitinho o fato de um cachorrinho estar coçando as costas do outro... Jamais esperava ver tal tipo de propaganda naquele jornal, mas estava lá.
A imprensa deve ser livre para realizar seu trabalho? Sempre. Existem governos que limitam abusivamente a imprensa? Claro, nós já vivemos em um regime desse tipo. Mas criticar a imprensa e desejar que exista um maior controle sobre o que é publicado é sinônimo de autoritarismo? Não. Os donos da grande imprensa não podem pretender serem os portadores oficiais da voz popular pelo simples fato de trabalharem com a divulgação de notícias que eles mesmo elaboram.

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