segunda-feira, 19 de julho de 2010

Enem revela, outra vez, o que deveria ser evidente




As escolas particulares ocupam os primeiros lugares do Enem novamente. Das vinte melhores 18 são privadas. As duas públicas que aparecem entre elas são ligadas à universidades, uma com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e outra com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A melhor escola, o Colégio Vértice em São Paulo, fez 749,7  pontos e a pior, a Escola Estadual Indígena Dom Pedro I no Amazonas, fez 249,25 pontos. Os vinte últimos lugares são ocupados somente por escolas públicas estaduais ou municipais. Até aqui nada de novo, pois é a repetição do quadro geral de todo Enem.
Jornal do Brasil publicou entrevista com Wanda Engel, do Conselho de Governança do movimento Todos pela Educação, a qual afirma que o Enem não serve para avaliar a qualidade das escolas. Serve para avaliar a qualidade do aluno, uma vez que o exame não é obrigatório e muitas escolas estimulam somente a participação de seus melhores alunos. É um argumento importante. O Colégio Vértice teve 62 inscritos mas somente 37 fizeram a prova (cerca de 40,3% de ausentes). Já o colégio da UFV teve 159 inscritos, dos quais 152 fizeram a prova (somente 4,4% de ausentes). É uma diferença que certamente afeta o estar em primeiro lugar ou em sétimo (caso do colégio federal). O colégio que ficou em último teve 58 alunos inscritos e 40 que efetivamente fizeram a prova (31% de ausentes).
O relatório de classificação das escolas no Enem possuí 632 páginas (pode ser baixado aqui, do site da Folha.com), mas o ranking termina na página 485 (com o colégio aqui mencionado do Amazonas). As primeiras 80 páginas são praticamente exclusivas das privadas e as últimas 80 páginas quase exclusivas das públicas estaduais. Mas sobram 147 páginas com escolas que tiveram menos de 2% de seus alunos participando do exame e que por isso não tiveram suas notas divulgadas. São 5399 escolas, 3483 públicas e 1916 privadas, para as quais o Enem passou quase que literalmente em branco. São alunos que não vão poder disputar uma vaga em nenhuma das universidades federais que vão utilizar somente a nota do Enem como critério de seleção.
Mas o que é mais revelador nos dados do Enem, como sempre, é aquilo que é apontado como a receita do sucesso do primeiro lugar. Uma escola com 900 alunos, que não ultrapassa o máximo de 50 alunos por sala, com uma mensalidade que vai de R$ 2.253 até R$ 2.756, incluindo neste valor várias atividades extracurriculares, como aulas de música, atividades esportivas, dança, culinária, teatro entre outras. A escola estimula a autonomia dos alunos e enfatiza a leitura. Todos na escola estão atentos e disponíveis para identificar problemas com os alunos e atendê-los sempre que necessário. Buscam uma parceria de confiança mútua com as famílias, que precisam conhecer o trabalho da escola. O que fazem quando tal confiança não existe? Recomendam que os pais procurem outra escola para seus filhos. O salário médio pago aos professores é de R$ 7.000,00.
Colégio de Aplicação da UFV possuí professores selecionados em concurso público, no qual a titulação é levada em consideração, em regime de dedicação exclusiva. Estão disponíveis para atender os alunos em todos os horários do dia. O salário inicial, divulgado em edital este ano, é de R$ 2.757,64, havendo uma progressão significativa deste valor no plano de carreira. No ano passado, 2009, a remuneração de seus professores ficou entre R$ 2.300,00 e R$ 5.800,00.
Não vamos nos alongar mais. A receita segue os seguintes pontos:

  • escolas estruturadas para receber os alunos, com laboratórios, computadores e biblioteca;
  • professores com dedicação exclusiva ou quase exclusiva;
  • parceria real entre pais e escola (o que excluí a relação de cliente/empresa praticada em muitas escolas e universidades);
  • respeito aos professores, demonstrado tanto pela direção, pelos alunos e os pais;
  • respeitos aos alunos praticado por professores, direção e pais;
  • estimular a qualificação dos profissionais;
  • remuneração que valoriza o profissional e lhe permite uma dedicação exclusiva, bem como o tempo necessário para preparara aulas inovadoras, com uso de recursos tecnológicos.
E não importa se é privada ou pública, a receita é a mesma. Quem não gasta dinheiro e tempo de dedicação com a educação não colhe resultados positivos. 

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