sábado, 29 de janeiro de 2011

Combatendo os faraós

Chamou a atenção na crise do Egito uma notícia sobre "saques" ocorridos no Museu Egípcio. Em meio às manifestações populares para que o presidente Hosni Mubarak, que governa o Egito há 30 anos, saia do poder um grupo de pessoas invadiu o museu. Não saquearam nada como a matéria divulgada pela Reuters sugere no título, mas destruíram duas múmias.
Interessante simbolismo! Assim como o atual presidente do Egito os faraós também permaneciam por anos no poder... O povo nas ruas pede a saída do presidente e ao mesmo tempo decide atacar as múmias no museu, que lembram a estrutura social de uma sociedade em que o faraó mandava e os demais obedeciam, em que aqueles que podiam pagar pela mumificação teriam assegurada a vida eterna, enquanto aos demais restava o trabalho.
O presidente do Egito está no poder há 30 anos e confesso que somente agora vejo o noticiário abordar tal fato como um problema capaz de gerar descontentamento na população, em atritos que já mataram pelo menos 73 pessoas.
É realmente um mundo de pesos e medidas diferenciadas de acordo com os interesses políticos e econômicos dos mais fortes.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ignorando a ciência

Quem já fez uma reforma grande ou construiu uma casa vai provavelmente identificar esta imagem: as paredes são erguidas e rebocadas, então é feito o chamado "recorte" (em que a parede novinha é quebrada...) para passar fios ou mesmo algum encanamento nas paredes. Obras mais recentes, quando feitas sob supervisão de engenheiros e pedreiros qualificados, não realizam tal procedimento. Os canos e fios já são planejados previamente, de modo que não é necessário quebrar as paredes depois de prontas, economizando muito material.
A situação anterior é o retrato de algo que falta no Brasil: planejamento que leve em consideração as contribuições da ciência. Pois existe ciência aqui e, se procurarmos bem, também existem planejamentos dos mais diversos. Mas falta o diálogo entre ambos. Falta também que sejam considerados com maior seriedade. Existe um certo sentimento de que os cientistas são aqueles que fazem teorias que muitas vezes não possuem qualquer finalidade. Que os cientistas não se preocupam com a prática, com a ação que, no final, é o que realmente faz as coisas acontecerem. A maioria da pessoas que vão construir um imóvel não procuram um engenheiro desde o começo da obra. Vão procurar o pedreiro, que tem a experiência em construir. O engenheiro, profissional qualificado pelos conhecimentos científicos, aparece somente como a pessoa que precisam pagar para assinar uma planta no caso de regularização da construção (que muitas vezes não é feita).
A situação se repete com profissionais de vários outros campos. Cientistas Sociais produzem diversos conhecimentos sobre a nossa sociedade, mas dificilmente eles serão considerados no momento de elaboração das políticas públicas, definidas ao sabor dos favorecimentos e interesses políticos. Lembro de uma cena do primeiro "Tropa de Elite", quando o personagem Matias elabora um mapeamento estatístico das regiões da cidade que precisam de policiamento mais intensivo, mas que é descartado como algo inútil pelo oficial responsável. Mesmo considerando-se a presença de interesses políticos e econômicos tal situação também retrata o lugar reservado para o conhecimento científico em contextos de corrupção.
Podemos ver o mesmo acontecer na educação, onde a situação fica ainda mais exemplar. Os professores são profissionais que receberam qualificação universitária (claro que ainda temos exceções por conta de situação caótica da educação pública) e que atuam na prática, ou seja, receberam os conhecimentos científicos e atuam na sua transmissão. Exercem uma função que é teórica e prática (ainda que muitos acreditem que não). Mas não são eles os consultados no momento da elaboração das políticas públicas de educação. Torço aqui para que o discurso de posse de Dilma se concretize (ela afirmou o seguinte: "Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso com a educação das crianças e jovens.").
E temos as chuvas, mais uma vez, gerando imagens dramáticas que todos os anos desejamos que não voltem a acontecer. Mas o tempo passa e chega um novo Janeiro e com ele a repetição. Não vou falar sobre os usos e ganhos políticos da rotina das tragédias no Brasil. Mas tudo que se falou até agora sobre os deslizamentos das encostas de montanhas é repetição do que foi dito e explicado no ano passado com as mortes em Angra dos Reis. Terrenos instáveis que não deveriam jamais ser ocupados ou alterados pelo homem. Alertas da meteorologia que mesmo quando emitidos não desencadeiam ações capazes de minimizar as mortes.
Tudo se relaciona. O descaso com as informações técnicas e científicas e o desempenho de nossos estudantes. Um ensino precário formará profissionais precários que não conquistarão a confiança geral. É um ciclo que só pode gerar catástrofes. Romper esse e tantos outros ciclos problemáticos é o desafio que não podemos adiar. Ou então teremos outros Janeiros de tragédias anunciadas.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O salário do professor e a qualidade da educação

Interessante como alguns temas rodam e rodam somente para acabarem batendo em soluções já conhecidas. Uma das conclusões a que os organizadores do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) chegaram é a de que os países que gastam muito dinheiro em educação, principalmente na qualificação e remuneração dos professores, são os que alcançam os melhores resultados. Palmas! Confirmaram com dados quantitativos e qualitativos aquilo que tem sido a pauta principal da luta dos sindicatos de professores no Brasil por décadas! Outra informação interessante a que chegaram com o Pisa é de que o número de alunos por sala não é tão importante quanto a remuneração do professor no que se refere à qualidade de ensino. Também não é nenhuma novidade. Há muitos anos que os melhores colégios particulares do Brasil possuem salas lotadas e professores que recebem de três até cinco vezes (em alguns casos mais) os salários de seus colegas do ensino público (e também de muitas particulares). Mais interessante é a frase de Daniel Cara, citada em matéria do portal UOL . Ele é coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação: “O grande caminho agora é incentivar a renda das famílias. Quanto maior a renda, maior a escolaridade”. Novamente a questão da remuneração, que nos leva para um tema já não tão intensamente presente nos debates contemporâneos: distribuição de renda. É preciso que o brasileiro passe a ganhar mais. E não se trata somente de uma questão de aumentar o salário mínimo. Precisamos mesmo é romper com a desvalorização histórica do trabalhador em nosso país e entender que o salário mínimo não deve ser definido como o salário máximo! Ele é o patamar menor da subsistência! Não adianta esperar que os professores se comportem como religiosos cumprindo uma missão! São seres com necessidades. Trabalham por que gostam da profissão, mas também precisam pagar suas contas. Se as aulas em uma escola não bastam para tanto vão precisar buscar por mais aulas em outras. Se dar aulas pela manhã não é o suficiente vão ocupar as tardes e as noites. E não se iludam: o professor que trabalha nesse ritmo ainda não vai conseguir ganhar o mesmo que o professor dos nossos melhores colégios (já escrevi sobre isto aqui no Blog ). Ocupa todo seu tempo com aulas e acaba sem tempo de prepará-las e de se reciclar. Também acaba sem tempo para a própria família. Sim, os professores possuem famílias para sustentar! Infelizmente, como todo trabalhador sabe, não é possível fazer isso somente com boas intensões e muita vocação.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Educação: Brasil e França

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do seu Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). O Brasil comemorou os resultados e a França deplorou. Por aqui conseguimos subir de pontuação em leitura, ciências e matemática, com os seguintes números (pela ordem): 412; 405; 386. O objetivo era superar a barreira dos 400 pontos, daí a comemoração. Mas é preciso entender bem o real significado da tais pontuações:
  • leitura - metade dos brasileiros atinge somente o nível um estabelecido na avaliação. Isso significa que conseguem identificar somente informações explícitas nos textos e estabelecer algumas relações com seu contidiano. Não conseguem extrapolar, estabelecer relações com outras fontes de informação e nem mesmo encontrar outras informações menos evidentes. É aquilo que todo professor conhece: o aluno que só é capaz de encontrar uma resposta se ela estiver estampada em letras garrafais no texto, que não consegue interpretar realmente aquilo que leu.
  • matemática - temos que 69% de nossos estudantes estão no nível um também. Não conseguem ir muito além da matemática básica, apresentando grande dificuldades para lidar com as fórmulas ou os conceitos matemáticos. São capazes então de fazer as contas elementares, mas não conseguem lidar com nada mais elaborado (incluído aqui a regra de três...).
  • ciências - novamente temos metade dos alunos no nível um (54,2%). São alunos que não conseguem empregar a disciplina no seu cotidiano por realmente não a compreenderem. É o mesmo caso da habilidade de leitura: podem até encontrar a resposta da pergunta se ela for bastante evidente, mas não entendem realmente o seu significado.
Já os estudantes franceses obtiveram a seguinte pontuação: 496 em leitura; 497 em matemática; 498 em ciências. Por lá estão preocupados pois houve uma queda dos resultados dos alunos. Também ressaltam que os dados revelam que a educação na França não tem cumprido com seu papel de promover a ascensão social e de minorar as desigualdades. É isso! Claro que não temos como comparar duas realidades tão distintas como a brasileira e a francesa diretamente. Estamos lutando para chegar na marca dos 400 pontos e ainda nos falta muito para consolidar tal posição. Mas mesmo quando estivermos lutando para chegar na marca dos 500 pontos (o que espero que possa ocorrer nos próximos anos) teremos muito ainda por resolver. A educação é um caminho para a ascensão social e para o desenvolvimento, mas sozinha não faz milagres.
Se por um lado devemos ficar felizes pelo crescimento obtido não significa que devemos começar a celebrar. Não chegamos ainda na média definida pela OCDE (que gira em torno dos 500 pontos para cada conjunto de conhecimentos). Se demos passos importantes nos últimos anos eles foram certamente o início da tudo que ainda temos por fazer. Se queremos uma saúde melhor, uma economia melhor, serviços melhores, devemos ter profissionais melhores, com uma formação adequada. Então o que os resultados do Pisa realmente nos dizem é que devemos trabalhar mais pois temos muito pela frente. Mas não é somente o trabalho realizado pelas escolas e universidades que vai contar aqui, mas aquele de toda a sociedade.

sábado, 13 de novembro de 2010

É mais fácil bater

O mais difícil no processo do nossa amadurecimento é aprender a lidar com os próprios limites e reconhecer as nossas falhas. A sociedade atual, mais do que nunca, é voltada para a aparência da perfeição. Não estou nem mesmo pensando na questão mais evidente do físico de qualquer pessoa, mas sim no seu crescimento intelectual. É realmente um fato que hoje temos acesso à uma quantidade enorme de informações sobre todos os assuntos. Mas cada vez mais para consolidar-se também que as pessoas não lidam com o conhecimento que buscam. Querem a informação rápida, resumida (como por sinal é a propaganda de algumas revistas...), que não vai tomar muito tempo para ser encontrada. Nem todos percebem que toda informação precisa de tempo para ser absorvida e que os resumos muitas vezes não carregam toda a verdade (em alguns casos nem mesmo aquilo que é realmente importante!).
Pensei nisso ao ver a foto da professora de 57 anos agredida por um aluno de 25 anos em Porto Alegre. O rapaz teria se irritado por ter tirado uma nota baixa na matéria da professora. Ao invés de procurar entender o que houve decidiu pegar uma cadeira e bater na professora, que ao tentar se defender terminou com os braços quebrados. Ela desmaiou. Não satisfeito em sua fúria o jovem, que também é instrutor de artes marciais, continuou seu ataque com socos e chutes, quebrando seis dentes de sua indefesa vítima.
A tarefa do professor não é fácil. Devemos transmitir conhecimentos aos alunos, empregar estratégias que facilitem o aprendizado. Mas não podemos fazer nada sem a ação dos alunos. É o aluno que precisa que precisa ficar atento nas aulas. E não se iludam! Mesmo quando ele não considera a aula "legal"! Pois não é possível ao mesmo professor agradar todos os alunos, ainda mais com jovens acostumados a mudar de programa e da página com um clique quando não gostam do que viram. É o aluno que precisa ler o que lhe foi pedido ao invés de ficar esperando que o professor explique todo o texto em sala e que ainda lhe envie o resumo da matéria em slides! Escuto de vários alunos que o professor só pode cobrar o que falou em aula... e O texto que ele pediu para ler antes da aula? A aula é o momento do diálogo, do debate, da retirada de dúvidas. Mas as dúvidas só podem existir se o aluno leu e estudou o que foi pedido antes! Quando o professor se depara com uma sala que não fez o que lhe foi pedido somente lhe resta voltar para o método tradicional: vai para o quadro e explica tudo... Depois ainda vai ter que ouvir que suas aulas não são interessantes! Vai ouvir reclamações sobre as notas e o desempenho dos alunos. E pode até mesmo ser agredido se houver algum destemperado em sua sala.

sábado, 30 de outubro de 2010

O Plano Real: o preço de uma ilusão

Lembro do dia em que o Plano Real foi lançado. Como um passe de mágica abandonamos o debilitado cruzeiro e fomos apresentados ao turbinado Real. A mágica acontecia através da aplicação da URV (Unidade Real de Valor), que valia exatos Cr$2.750,00. Todo o dinheiro dos brasileiros foi convertido do cruzeiro para o Real com base na URV. O detalhe é que o valor da URV (Cr$2.750,00) era o mesmo da cotação do dólar na época... A inflação em 1993, ano anterior ao lançamento do real, havia chegado à 2.708%, o que não chega a ser o seu maior valor histórico...
A euforia com o Plano Real foi grande. Repentinamente parecia que nossa moeda era tão forte quanto o dólar, de modo que as importações aumentaram muito. O governo garantia a igualdade do valor entre o Real e o dólar. Era inclusive previsto oficialmente:

Propõe-se, por outro lado que o Real seja lastreado nas reservas internacionais do país, na exata proporção de um dólar americano para cada Real emitido, vinculando parcela das reservas internacionais para tal fim, em conta especial do Banco Central. (Exposição de Motivos da MP do Plano Real, 30 de junho de 1994)
Chegamos ao problema já bastante conhecido. Para manter o valor do Real foi necessário utilizar nossas reservas internacionais. Quando elas acabaram vieram os títulos da dívida pública, vendidos no exterior para atrair novos dólares, sendo portanto pagos em dólar. Quando chegou o tempo de pagar tais títulos começamos a vender as estatais, inclusive as que eram lucrativas (afinal se fosse um negócio ruim ninguém iria querer comprar). Para atrair os compradores ainda colocamos à disposição financiamentos do BNDES.
O resultado dessa mágica também é conhecido. Uma crise enorme, que estourou pouco depois da reeleição de FHC. Sem nada para vender, sem reservas e sem crescimento econômico chegamos a ver o dólar ser vendido aqui por R$4,00!!! Vamos lembrar que o Real já tinha um valor artificial inicial garantido pelo governo (não podemos esquecer da URV de Cr$2.750,00). Imaginando que nossa moeda ainda fosse o cruzeiro era como se o dólar passasse a valer Cr$11.000,00!!! Se com o dólar em Cr$2.750,00 a inflação havia chegado aos 2.708% vejam o tamanho do problema!
Lula foi eleito pela primeira vez em tal contexto. E seu governo precisou adotar a única medida possível para solucionar a crise: fazer a economia nacional volta a crescer. Não podiam mais interferir diretamente no valor do dólar, de modo que as importações sofreram. Mas houve diversas medidas de incentivo ao crescimento das empresas nacionais, bem como às parcerias com os países do Mercosul, com os quais o comércio é realizado com tarifas bem menores. Por isso dizer que o governo Lula apenas continuou o caminho econômico traçado por FHC e o PSDB é realmente ridículo. Em 1994, início do governo de FHC e já com o Real, nossa dívida pública era de cerca de 60 bilhões de dólares. Quando FHC terminou seu segundo mandato a dívida pública passava dos 850 bilhões de dólares! Precisamos emprestar dinheiro dos EUA e do FMI.
Se há algo que se pode dizer é que o governo Lula que está chegando ao fim não continuou com a política iniciada por FHC. Ele mudou completamente o rumo da nossa economia, alterando nossas prioridades de investimento e de parcerias comerciais mas sem alterar a precária estabilidade gerada pelo Plano Real.
Faço hoje tais reflexões para lembrar que a escolha do voto deve levar em consideração o projeto de gestão estabelecido pelos candidatos. A questão da corrupção certamente é importante, mas querer acreditar que a corrupção surgiu agora, ou que ela nunca foi tão grande é fechar os olhos para o passado! Basta olhar nos arquivos da Folha de S. Paulo no período FHC, ou então para os que acham tal jornal "esquerdista demais", olhar nos arquivos de O Estado de S. Paulo (que apoia oficialmente o candidato José Serra) e da Veja (que não anunciou oficialmente o mesmo apoio que o Estadão, mas aplaudiu a ação do jornal). Para quem acha o atual governo truculento é só lembrar que no período de FHC tivemos o massacre de Eldorado dos Carajás, bem como a polícia paulista (do também tucano Covas) começando com a "moda" de bater nos professores em greve (e também em alunos). Ou mesmo da invasão do exército na refinaria de Paulínia em 1995 (também durante uma greve).
Por esses motivos é que considero prioritário observar os planos dos candidatos para a nossa Nação. O texto já deve ter deixado a minha tendência de voto. Mas são somente os meus motivos e a minha opinião. E essa é a beleza da democracia que tão arduamente construímos.

* Quem quiser ler mais sobre a dívida pública e outras comparações entre os governos de Lula e FHC pode ler os seguintes textos:
Carta aberta a Fernando Henrique Cardoso
A Dívida Pública Interna e Sua Trajetória Recente

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Tiririca e o sentido da democracia


Consolidada a eleição de Tiririca, amplamente antecipa pelas pesquisas, vários comentários surgiram. Não são novos e repetem muito do que foi dito desde o primeiro momento em que o agora ex-palhaço anunciou sua candidatura. Várias pessoas gritaram sobre o absurdo de sua campanha, sustentada pelo lema "pior do que está não fica". Outros lamentaram as escolhas do povo, culpando sua ignorância e questionando os procedimentos da nossa democracia.
Candidatos como Tiririca não são exatamente uma novidade. A mesma polêmica surgiu durante a campanha e posterior vitória de Clodovil, que dizia abertamente não ter plataforma política alguma. Todas as eleições realizadas após o período da ditadura militar contaram com candidatos polêmicos por utilizarem o humor, muitas vezes a respeito da própria imagem e capacidades. A novidade dos últimos anos é que alguns começaram a ser eleitos.
O historiador José Murilo de Carvalho explica, no livro Os Bestializados, a imagem que as elites do Brasil imperial tinham do povo no momento da proclamação da República. O movimento que derrubou a monarquia não contou com a participação popular, o que levou Aristides Lobo (jornalista e propagandista republicano) a afirmar que "O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava". A frase reflete o espírito das elites da época: o povo é uma massa ignorante, que nada sabe sobre os rumos da nação, sendo sua participação geral a de meros espectadores. E na verdade para tais elites estava tudo bem assim! O povo de fora do processo político e suas manifestações de descontentamento sendo duramente reprimidas, como ocorreu em Canudos, na Revolta da Vacina, no Contestado e, bem mais recentemente, com os sem-terra em Carajás.
Carvalho nos oferece uma interpretação diferente. O povo não era bestializado. Eles eram bilontras, ou seja, espertalhões, gozadores. Sabiam que muito bem que a política era um jogo de representações que alteravam muito pouco sua própria realidade cotidiana. Nesse sentido tratar a política como algo verdadeiro é que seria o erro, a ilusão.
A eleição de Tiririca deve receber uma análise muito mais profunda do que vem recebendo. Ela pode representar a manifestação de um parcela do povo que grita abertamente que a política é um jogo no qual as camadas populares saem sempre perdendo. Já que a política não é feita com seriedade melhor deixá-la com um profissional em palhaçadas. Mas também pode expressar que Tiririca conseguiu atingir um público que não se sente representado pelos atuais políticos. Ele que sofreu com a seca, que veio tentar a vida em São Paulo como tantos outros retirantes; que não teve acesso a uma boa educação, como tantos brasileiros. Resta saber quem é o mais iludido: o que acredita nas promessas de candidatos "sérios", muitas das quais não serão certamente cumpridas, ou quem faz a opção por um candidato insanamente transparente em sua ignorância?
Quer seja como uma forma de protesto ou como a expressão de uma identificação do eleitorado o fato é que o regime democrático estabelece o direito de Tiririca em concorrer, ser eleito e assumir o cargo. Contestar tal direito popular é um verdadeiro atentado contra a democracia! É desejar retornar ao tempo em que o voto não era livre para todo cidadão brasileiro: no período imperial havia o critério censitário (pela renda) e durante muito tempo na República era necessário ser alfabetizado. Quem não se enquadrava em tais condições tinha o dever de pagar seus impostos e cumprir as leis, mas não podia participar da vida política. Levamos muito tempo até a compreensão de que os setores mais pobres da sociedade também devem participar do processo político.
Antes de questionarmos os direitos de Tiririca e seus eleitores devemos questionar os políticos alfabetizados e bem formados, os que já estão na política há muitos anos, que não conseguiram criar as condições necessárias ao estabelecimento do bem-estar para toda população.
Eu não votaria em Tiririca. Ele não representa o que acredito ser necessário para um político (assim como diversos outros candidatos que foram eleitos). Mas abomino com muito mais força qualquer discurso que pretenda restringir o direito da livre manifestação popular através do voto! O autoritarismo deve ser sempre combatido, principalmente quando aparece disfarçado como "defensor" da democracia.

domingo, 3 de outubro de 2010

Vazamentos na rede

Devem existir limites nas informações que são divulgadas nos meios de comunicação? Alguém que divulgue documentos confidenciais de qualquer governo deve ser considerado um espião, um traidor ou um simplesmente um defensor da liberdade de informação? Esse é o debate ao redor de Julian Assange, criador do site especializado em divulgar documentos confidenciais, o WikiLeaks. Ele hoje vive como um foragido, pois governos como o dos EUA desejam detê-lo para interrogatórios.
Mas não somente os governos que questionam a atividade de Assange e seus associados. Matéria do Der Spiegel divulgada pelo UOL, revela que mesmo parte da grande imprensa parece questionar os interesses que o movem. Basta ver o questionamento proposto no título da matéria: O WikiLeaks é benção ou maldição para a democracia?, e também um subtítulo no meio da matéria: Entregando os informantes. A matéria, apesar do título, não discute o papel do acesso à informação no sistema democrático, na verdade não aborda nada sobre a questão do funcionamento da democracia no mundo. E ainda deixa sugerido que o WikiLeaks é uma ameaça aos seus próprios informantes, como é o caso do soldado norte-americano Bradley Manning, que foi preso acusado de divulgar informações para o site.
A matéria discute também quais seriam os critérios empregados por Assange e sua equipe para selecionar o que deve ser divulgado.
Parece-me que mais do que questionar os interesses envolvidos na elaboração do site é necessário questionar os interesses daqueles que repassam as informações confidenciais ao mesmo. Configura-se uma rede de informantes que estão vazando relatórios confidenciais, frequentemente com a justificativa de estarem atuando em favor da verdade e da liberdade. Será mesmo? Realmente parece questionável. Mas com a mídia oficial temos o mesmo problema! Os jornais possuem fontes de informação espalhadas em todas as esferas do poder. Pode ser o assessor de um político, o escrivão de uma delegacia, o funcionário de um fórum, enfim! Mas há algo interessante com o WikiLeaks: as autoridades reclamam das atividades do site, mas não questionam a veracidade dos documentos divulgados...
Qual é o incômodo então com o WikiLeaks? Que eles são uma fonte de divulgação de informações que governantes não desejam ver publicadas, uma vontade que a grande mídia parece não se importar em respeitar. Com tantos políticos proprietários ou sócios em veículos de mídia pelo mundo, controlando sabe-se lá de que maneira a divulgação das informações, que venham mais e mais WikiLeaks.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Exemplos

O Conselho de Direitos Humanos  da ONU afirmou ontem que a ação de Israel contra a frota com ajuda humanitária na Faixa de Gaza no mês de maio contrariou as leis humanitárias internacionais além de ter violado os direitos humanos. Foi condenada a brutalidade da ação, considera desnecessária, mas também foram feitas críticas diretas ao próprio bloqueio imposto por Israel na região, identificado como uma forma de punição coletiva injustificável contra a população civil. A declaração também condenou os ataques de mísseis disparados da Faixa de Gaza em direção à Israel.
Apesar de ser um avanço, a declaração corre o risco de cair no vazio, como tantas outras. A legitimidade de ONU depende da eficácia não somente de suas palavras, mas das ações que deveriam estimular. O governo de Israel nem mesmo colaborou com os investigadores da ONU, conforme ressaltado no mesmo documento.
Quando nações como Israel, EUA e Inglaterra (cujos governos já desrespeitaram determinações da ONU) demonstram que a força é o que vale não devemos estranhar que o exemplo seja seguido em escala global.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Efeito Lula?

Um debate recorrente nestas eleições tem sido sobre o tal "efeito Lula". Não vou indicar, como sempre faço, links para artigos que abordam tal assunto, pois eles podem ser facilmente encontrados em uma pesquisa no Google e são, com frequência, muito partidarizados. Mas diferentes comentaristas, analistas e blogueiros associam diretamente a imagem do presidente com o bom desempenho de alguns candidatos nas pesquisas eleitorais. O caso da campanha de Dilma é o mais evidente.
O argumento central é de que a boa imagem de Lula acaba de certo modo "colada" a do candidato que recebe o apoio presidencial, determinando uma vantagem competitiva. É como se o candidato não existisse realmente, sendo somente uma representação da personalidade de Lula.
Desdobra-se de tal argumento um outro, o que associa tanto ao presidente como ao seu partido e candidatos a alcunha de autoritários. Estariam impondo e determinando os rumos das eleições, caminhando inclusive para obter uma maioria confortável no Congresso, o que seria ameaçador para a nossa democracia...
Alguns pontos são problemáticos em todo esse raciocínio. Primeiro é que ele é falsamente analítico. Não existem dados ainda que comprovem que os eleitores estão votando, por exemplo, em Dilma somente por causa da presença de Lula ao seu lado. Na verdade o início da propaganda eleitoral na TV revelou um dado que muitas análises deixaram de lado: Serra perdeu ainda mais votos após aparecer regularmente em seu programa. É, portanto, mais provável que a imagem de Serra tenha exercido um papel na definição do voto do que a suposta imagem atrelada ao presidente Lula. Tanto é assim que quando Serra perde votos quem cresce é Marina Silva.
No que se refere à questão da democracia é ainda mais preocupante. Ficar descontente com a escolha do voto popular é uma coisa, mas atribuir tal escolha a um suposto autoritarismo é um salto grande demais. Seria mais fácil acreditar que o autoritarismo reside nas pessoas que levantam tal hipótese, justamente por não aceitarem as escolhas do voto da população. Para escaparem de tal acusação reforçam então a imagem do voto alienado, de que as pessoas estariam seguindo algo que lhes é sugerido direta e indiretamente por Lula.
Preciso dizer então que o fato da imagem de Dilma estar atrelada ao governo Lula não é surpresa alguma: ela fez parte do atual governo! Estranho seria se tal vinculação não fosse feita! Atribuir tal fato meramente ao uso da imagem do presidente na campanha é precipitado demais. Fosse isso verdade e teríamos somente candidatos apoiados por Lula sendo eleitos em todo o Brasil e o PT não precisaria fazer alianças (como ocorre com todos os partidos).
Democracia implica também que as partes aceitem as regras da disputa, particularmente as derrotas impostas pelo voto popular. Deverá ser assim, por exemplo, com os petistas em São Paulo e deverá (ao que tudo indica) ser assim com os tucanos na corrida presidencial. Qualificar a escolha popular simplesmente como manipulada, resultado de um povo supostamente alienado por políticas populistas, mas sem apresentar qualquer comprovação real desta argumentação é o mesmo que questionar o seu livre direito de escolha, o que é a porta de entrada do tipo de autoritarismo que se considera portador da verdadeira vontade coletiva (como aqui fizeram os militares em 1964).

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Obama e os mais ricos

O presidente norte-americano, Obama, foi muito criticado nos últimos tempos, inclusive aqui. As posturas dos EUA em diferentes incidentes certamente não o ajudaram. Mesmo a anunciada "retirada" do Iraque na verdade revelou-se apenas uma redução da presença norte-americana, pois cerca de 50 mil militares ainda continuarão por lá. Por isso foi interessante ler matéria da Reuters, sobre um discurso de Obama afirmando que o governo norte-americano não pode mais continuar fornecendo benefícios fiscais para os mais ricos. Foram cortes em impostos feitos pelo governo Bush mas que devem terminar no final deste ano. Obama anunciou que pretende manter os benefícios apenas para famílias com renda de até 250 mil dólares por ano.
A medida é interessante, revelando a disposição de seu governo de tocar na delicada questão sobre as responsabilidades sociais das camadas mais ricas da sociedade. Certamente é bom verificar que algumas das expectativas com a sua eleição eram reais. Mas o que chama muita atenção é a faixa de renda anunciada: famílias com renda de até 250 mil dólares anuais... É uma renda mensal de cerca de 20.800 dólares! Com a cotação de hoje seria o equivalente à R$ 35.776,00 por mês aqui no Brasil. Existem pobres e pobres...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Questões sobre a quebra do sigilo fiscal

Algumas questões sobre o caso da quebra de sigilo fiscal na Receita Federal:
  • José Serra afirmou que teria avisado pessoalmente ao presidente Lula, em janeiro, sobre a violação do sigilo de sua filha, alegando que os mesmos foram utilizados em um blog favorável à campanha de Dilma. Perguntas: Por que falar com o presidente na época e não com a polícia ou o ministério público? Ele estava tentando comprometer o presidente?
  • O caso da quebra de sigilo na Receita revela um problema maior, sobre a facilidade absurda com a qual nossos dados confidenciais podem ser acessados. Desde quando isso acontece? Quantas fraudes podem estar sendo realizadas através desses dados?

domingo, 29 de agosto de 2010

Quem paga o preço

O quadro não é novo. Um aluno se apresenta com problemas de notas em uma escola durante o primeiro semestre e procura então outra, considerada mais fácil, para terminar o ano. Qualquer professor, principalmente os dos colégios particulares, já viu isso acontecer, quer seja como docente da escola que perde o aluno ou da que o recebe. A questão foi brevemente apresentada em matéria de hoje na Folha.com. Destaque vai para o recado dos educadores: a medida pode atrapalhar mais do que ajudar. O aluno pode acabar com a impressão que não importa o que possa estar acontecendo sempre haverá um meio de se livrar das consequências da obrigação não cumprida.
Presenciei vários casos como esse. Mas um deles chamou minha atenção. Era um jovem que tinha muito potencial, mas que por um conjunto de fatores que estavam fora do controle da escola (e até mesmo da família), acabou ameaçado de perder o ano. Não havendo nada mais que pudesse ser feito por ele veio a opção de mudar de colégio. Alguns anos depois ele apareceu para uma visita e conversamos bastante. O que eu mais me lembro foi da seguinte frase: "Professor a escola lá é tão fraca que eu sou o melhor aluno da turma!".
Entre os especialistas ouvidos pela reportagem temos o alerta de que a escola não deveria se concentrar apenas nos melhores alunos, mas fornecer ajuda individualizada para os que apresentam dificuldades. Pronto! Mais uma vez o ideal esbarrou no real. As escolas, no modelo que temos hoje, não possuem condições para fornecer tal atendimento. Ele custa muito caro. É preciso pagar ao professor e outros profissionais, que não podem então possuir muitos compromissos externos. Para conseguirem concorrer em uma situação na qual os donos das escolas se comportam como meros empresários tal custo extra pode significar a perda de outros tantos alunos para os concorrentes. Que é exatamente o que os pais acabam fazendo ao retirar seus filhos para "uma escola mais fácil", sem saber realmente o que isto possa ser.
Ficamos então todos sem saída! O professor não consegue atender os alunos individualmente, tem as salas lotadas e trabalha em mais de um emprego. A maioria das escolas não dispõe do grupo de profissionais necessários para atender com qualidade esses mesmos alunos. Os pais acabam optando pela única saída aparente, uma vez que muitos também não podem pagar pelo atendimento profissional necessário. E quem sofre é o aluno. Mas, infelizmente, enquanto a tendência de considerar a educação como uma mercadoria prevalecer (já temos inclusive grupos de educação que lançaram ações na bolsa de valores) não há como imaginar a adoção de um sistema de ensino inclusivo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Bilontras

O historiador José Murilo de Carvalho utilizou esse termo para se referir à população brasileira no século XIX, no episódio da proclamação da República em seu livro Os Bestializados. Carvalho discute na obra com a imagem de que o povo brasileiro teria assistido "bestializado" os eventos da proclamação da República, dita por Aristides Lobo, querendo dizer que ninguém realmente entendeu o que se passava. Contrariando tal imagem Carvalho propõem a do bilontra, o malandro. Se o povo não participou do evento ou não procura se envolver mais com os rumos da política não por ignorância, mas sim por terem a compreensão clara de que a política é um jogo, uma disputa de discursos e imagens. Nesse aspecto os que consideram a política como algo verdadeiro é que seriam os verdadeiros bestializados, enquanto que todos os demais, que  assistem de longe e debocham de todo o teatro seriam os bilontras.
Lembrei-me do texto ao ler entrevista com o candidato à deputado federal por São Paulo, Tiririca (pelo PR). O humorista defende que sua presença na câmara não vai deixar as coisas piores do que estão. Também fica claro que são os assessores indicados pelo seu partido que irão montar os projetos e definir os rumos do seu mandato (diante da real possibilidade de que seja eleito). Ele revela que não entende nada sobre isso. Afirma que vai defender as crianças e os nordestinos, trabalhando pelos mais necessitados.
O que o voto em Tiririca significa? Acredito que há um pouco do bilontra sugerido por Carvalho: votar nele é chamar todos os políticos de palhaços. Mas também é um sinal do personalismo político que marca grande parte de nossa sociedade, que não vota considerando os programas partidários mas sim os candidatos. Comentei sobre isso no meu artigo anterior neste blog. Temos que considerar ainda que algumas pessoas podem acreditar que, diante do quadro atual, Tiririca, por sua origem e apelo popular, pode representar uma possibilidade de expressão para uma parcela do eleitorado, absolutamente desesperançada, grande o suficiente para elegê-lo. Quando Clodovil foi eleito para o mesmo cargo pelo mesmo estado críticas semelhantes surgiram, principalmente diante da sua autodeclarada inexperiência. Após sua morte quase nada foi dito sobre seu papel pífio na câmara, apenas louvaram sua carreira de estilista.
É preciso verificar também se a crítica à candidatura de Tiririca não revela muito mais um elitismo que beira realmente o racismo. Afinal, gostando ou não, ele possuí o direito de ser candidato e, sendo eleito, cumprir as atribuições de seu mandato. Excluí-lo previamente simplesmente por ele ser quem sempre foi é certamente uma forma de discriminação. Demoramos muito para chegar até a concepção de que todos os cidadãos brasileiros alfabetizados, independentemente de sua cor, origem, religião e classe, possuem o direito de se lançarem como candidatos. A democracia deve ser o espaço da expressão da diversidade.
O desafio é então, mais do que ficar chocado e indignado com a possibilidade da eleição do humorista, entender os fatores que motivam seus eleitores superando o discurso fácil que remete à ideia de um povo bestializado.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

As instituições e os indivíduos

Para que servem os partidos políticos? Os dados analisados pela Datafolha parecem indicar que não para muita coisa, pelo menos para uma boa parte dos eleitores. Observem as intenções de voto para governador e senador (lembrando que são duas vagas para senador) em alguns estados:
  • Minas Gerais - Hélio Costa (PMDB) tem 43% das intenções de voto para governador. Mas 74% dos eleitores de Hélio irão votar para senador em Aécio Neves (PSDB) e 56% em Itamar Franco (PPS). O candidato aliado de Hélio ao senado, Fernando Pimentel (PT), recebe 26% dos votos de seus eleitores.
  •  São Paulo - Geraldo Alckmin (PSDB) liderada para governador com 54%. Mas 29% dos eleitores que votam no tucano irão votar em Marta Suplicy (PT) para o Senado. Ela segue em primeiro lugar no estado, com 32% do total.
  •  Rio de Janeiro - Sérgio Cabral (PMDB) segue em primeiro lugar para governador, com 57%. Mas 45% de seus eleitores devem votar em Marcelo Crivella (PRB) e 39% em Cesar Maia (DEM) para o Senado. 
A matéria ainda mostra a mesma situação ocorrendo na Bahia e no Paraná. Aparentemente não há então uma grande preocupação de parcela do eleitorado brasileiro em considerar os programas partidários na definição do voto. Votam no candidato e não exatamente no partido. Confiam na pessoa mas não na instituição... Não consigo deixar de pensar na imagem do "homem cordial", elaborada por Sérgio Buarque de Holanda. Em uma nação em que as instituições representam interesses privados, resta à população a cordialidade, expressa nas relações pessoais, como o mecanismo para conseguir ter acesso ao que deveria ser público. As instituições então não são confiáveis, pois agregam uma gama variada de pessoas que não conhecemos diretamente. Mas é possível buscar indivíduos específicos dentro delas. Se eles serão os melhores ou não para o cargo é questão para outra reflexão...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ninguém se responsabiliza

Eric Schmidt, que é o presidente da Google, advertiu que os jovens de hoje talvez tenham que mudar seus nomes como única alternativa para apagar os rastros que deixam ao navegar pela internet. Afirmou que a sociedade ainda não consegue entender os riscos de serem disponibilizadas informações pessoais livremente na rede. Como a Google é certamente a maior empresa atuando nesse setor o recado precisa ser bem entendido.
Em janeiro de 2006 o caderno Mais! da Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com Vinton Cerf, que idealizou a internet e seus protocolos. Na época ele trabalhava para a Google, atuando justamente na expansão da rede no mundo todo. Entre outras coisas ele afirmou o seguinte:
O Google não garante o conteúdo que descobre na internet. Seus algoritmos, que fazem o ranking do material que ele apresenta, são intencionalmente preparados para dar destaque ao que parece ser mais relevante. (FOLHA DE S. PAULO. O meio sem a mensagem. 29 jan. 2006, Caderno Mais!)
Cabe então ao usuário filtrar a qualidade e a confiabilidade de cada site. Assim como cabe ao usuário filtrar o que vai postar na internet. Interessante que em um mundo de tantos avanços o discurso de uma das empresas mais modernas e atuantes no setor da informação seja o mesmo de qualquer empresa tradicional. A afirmação de que não se responsabilizam pela informação que circula assemelha-se ao velho argumento da indústria de armas: são as pessoas que matam e não as armas.
Enquanto isso a Google continua a crescer e a acumular cada vez mais dados que ninguém sabe ao certo, ainda, como podem ser utilizados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Enterrando a educação pública

Quando nenhuma "novidade" parecia possível na educação brasileira! O governo do estado de São Paulo, gestão do PSDB (que já perdura por 16 anos), jogou mais uma pá de terra na cara dos professores. Vão pagar R$ 50,00 para cada aluno que ficou em recuperação de matemática e que participe integralmente das aulas de reforço. Patético é o mínimo que posso dizer! E ainda existem "educadores" que apoiaram a ideia! O que assusta mais? Que nas discussões do projeto chegaram a cogitar sortear um notebook entre os alunos que participassem integralmente das aulas de reforço! Fabuloso! E os bons alunos? O que recebem? Nada, somente a certeza de que cumprir suas obrigações não conta para nada nesse país! Cumpra seu dever e sinta-se feliz, enquanto você observa os que não cumprem receberem incentivos e premiações. Como se já não fosse suficientemente difícil ser professor nos dias de hoje.
Claro que os alunos com dificuldade precisam de atenção. Mas e os que são bons alunos? Não precisam ser estimulados a prosseguir? A tentar uma vaga nas universidades públicas? Premiar a presença nas aulas de reforço é uma daquelas ideias que arrebentam com tudo, inclusive o trabalho de se tentar resgatar a dignidade do professor. Os alunos das escolas públicas precisam que suas famílias ganhem melhor, para que possam viver melhor e assim conseguirem estudar. Dinheiro para pagar melhor aos profissionais que atuam nas escolas não existe, mas para bonificações sim.
Como convencer os alunos de que é necessário estudar se os gestores do estado os estimulam a pensar o contrário?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Consumo sustentável

A Abecip, Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, divulgou que os brasileiros que procuram crédito bancário para compra de imóveis financiam, em média, 61,9% do valor total da compra. Em 2004 a média era de 46,8% do valor do imóvel. Segundo a associação existe uma tendência de crescimento até cerca de 80% do valor do imóvel, patamar considerado "sustentável". Afirma também que não corremos o risco de uma "bolha imobiliária" como ocorreu nos EUA por dois fatores: 1- não há endividamento considerado excessivo da parte de consumidores e construtores; 2- houve um aumento real da renda média do brasileiro, que deve ficar em torno de 8%. Por conta de todos esses fatores afirmam ainda que o preço dos imóveis deve continuar subindo, pois a demanda existe.
Sem querer ser alarmista algumas considerações precisam ser feitas. A Abecip é uma associação formada, basicamente, por Bancos tais como: Itaú, HSBC, Caixa, Santander, Banco do Brasil, Bradesco entre outros. Difícil acreditar que tais entidades, principalmente as privadas, desejem fazer qualquer declaração que desestimule a busca por crédito em suas empresas. No que se refere ao aumento da porcentagem financiada pelos brasileiros na compra do imóvel a Abecip ainda afirma que as pessoas que possuem capital guardado preferem não gastá-lo todo na compra do imóvel, assumindo parcelas maiores de financiamento para manterem um capital investido guardado. Faltou comentar que o preço dos imóveis vem aumentando aceleradamente nos últimos anos, influenciando certamente o valor financiado pela população. Em diversas regiões os imóveis dobraram de preço. Não é preciso dizer que os salários não dobraram no mesmo período. Se as pessoas não querem gastar toda a poupança na compra do imóvel é justamente pelo temor de não possuírem reservas no caso de uma dificuldade futura. Certamente não é, para muitos, com a intenção de garantir o pagamento de financiamentos!
Ao final temos ainda a sinalização de que o valor dos imóveis deve subir ainda mais. Por mais que os salários estejam mais altos o ponto de partida de tal aumento era muito baixo! Não significa um poder real de endividamento sustentável. Dados do IBGE mostram que os setores que mais cresceram no comércio foram o de material de escritório, informática e comunicação (25,8%); móveis e eletrodomésticos (20,6%); itens farmacêuticos e de perfumaria (12,2%); alimentação, bebidas e fumo (10,4%); roupas e calçados (10,1%); livros, jornais e papelaria (8,1%); outros itens de uso pessoal ou doméstico (6,1%); combustíveis e lubrificantes (5,5%). São segmentos da economia onde o endividamento ocorre, mas em valores e parcelamentos menores. Não consigo visualizar como um aumento médio de salários na casa dos 8% poderá dar conta de manter todo esse consumo (incluindo os imóveis) em alta. As pessoas não podem deixar de comer e andar vestidas, mas podem cortar todos os demais gastos em caso de desemprego. Podem inclusive tentar vender o imóvel ou automóvel que compraram financiado, mas muitas imobiliárias trabalham com um tempo médio para a venda de imóveis de até seis meses (apesar de falarem inicialmente em três). Passado tal período alguns recomendam que o valor de venda seja diminuído. A questão então é saber se as pessoas nessa situação vão poder continuar pagando seus financiamentos...
Temos condições de sustentar tal ciclo? Somente em um quadro de manutenção dos empregos e aumentos sucessivos de salário... Já entenderam o problema.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Escondendo os erros

Acompanhem a seguinte história. Uma criança é abandonada pelos pais e entregue aos parentes. Algum tempo depois seu pai retorna, mas ele é violento e abusivo. Aos 13 anos a criança é largada na entrada do sistema de cuidado com as crianças do estado de Nova York, de onde ele sai aos 16 anos. O jovem tenta servir a Marinha, mas termina viciado e vivendo nas ruas. Certo dia encontra um bilhete de ônibus para a cidade de Oklahoma onde seu destino muda, para pior! Em 1982 um homem é morto na cidade com o uso de um pedaço de garrafa. Um jovem morador de rua, com histórico de violência e assaltos foi preso pelo crime, mas acusou o nosso protagonista de ser o assassino. Eles estariam fazendo um programa com o homem assassinado quando a situação teria se descontrolado.
Para complicar a situação de nosso jovem ele é afro-descendente. Terminou preso e julgado pelo assassinato, podendo pegar a pena de morte. Seu primeiro advogado não se importou muito: declarou seu desprezo pelos homossexuais e considerou seu cliente como hostil. Ele não se preparou para o julgamento e fechou seu caso com uma fala de nove palavras... Foi assim que James Fisher, então com 20 anos, foi condenado à morte. Passou os próximos anos tentando vários apelos sem sucesso, vivendo no corredor da morte, muitas vezes em total isolamento. Sua frustração manifestava-se como rebeldia na prisão, pela qual foi sempre punido. Após 19 anos na prisão finalmente a Corte Federal considerou a nulidade de seu primeiro julgamento diante do comportamento antiético de seu advogado. Em 2005 recebeu um novo advogado e um novo julgamento, mas obteve o mesmo resultado. O novo advogado confessou que na época era viciado em cocaína e tinha problemas com bebida, de modo que negligenciou todos os seus casos. Chegou mesmo a agredir seu cliente, Fisher, o qual acabou se recusando a participar do novo julgamento. Mesmo assim foi condenado à morte novamente e o julgamento considerado nulo pelas ações da defesa.
Finalmente aparece o último advogado, Mr. Hudson, que é orientado por Fisher a buscar um acordo. Em julho deste ano finalmente o caso foi encerrado, após 28 anos. O acusado, que sempre afirmou ser inocente e que tinha como único acusador um jovem viciado com histórico de violência, aceitou o acordo oferecido: ele seria imediatamente liberto caso assumisse a autoria do assassinato, passando então por um programa de readequação social, mas também deveria sair de Oklahoma para sempre. Saiu barato para o sistema legal norte-americano, que se livrou da possibilidade de um processo da parte de Fisher, que ficou 26 anos preso no corredor da morte sem nunca ter realmente recebido um julgamento justo.
A história de Fisher fez-me pensar, evidentemente, no nosso sistema judiciário, repleto de casos escandalosos, tais como o da garota de 14 anos que ficou presa em uma cela cheia de homens. Ela também, após a denúncia da situação absurda, repleta de abusos, acabou "amparada" pelas estruturas estatais de cuidado com os jovens. Não se adaptou em nada e hoje, já com 18 anos, prossegue com seus traumas e vícios, ainda carregando o estigma de ser de algum modo culpada por tudo que passou.
Não é somente o Irã, com o caso terrível do julgamento de Sakineh, que deveria receber as pressões das autoridades e personalidades mundiais.

sábado, 7 de agosto de 2010

O público e o privado na crise econômica

Quando a atual crise econômica surgiu foram os Estados, com dinheiro público, que tiveram que socorrer às empresas privadas. Pacotes e mais pacotes de ajuda foram aprovados, para evitar que mais bancos fechassem suas portas, que empresas falissem, principalmente nos EUA já governado por Obama, mas ações similares foram realizadas em praticamente todos os países. O presidente Lula chegou a declarar, ironizando com o discurso liberal e neoliberal de empresários/economistas que sempre defenderam a existência de um Estado pequeno
"Agora quem vai salvá-los é o Estado, que eles diziam que não servia para nada"
E parece que o Estado ainda terá muitas contas para pagar. Principalmente nos EUA, bastião mundial da imposição do modelo neoliberal. Mesmo com todos os investimentos estatais o setor privado nos EUA perdeu 130 mil empregos somente no mês de julho. O resultado foi desanimador e também preocupante por indicar que o ritmo de crescimento dos norte-americanos no terceiro trimestre será ainda menor do que no segundo.
Assim é que os agentes e defensores do mercado livre revelam suas prioridades. Quanto a crise chega tratam de defender seus interesses, cortam todos os investimentos e jogam toda responsabilidade para o Estado, que é a mesma coisa que jogar os prejuízos nas costas de toda população. É a velha lógica da socialização das perdas, discutida pelo economista brasileiro Celso Furtado: os lucros são privados e só pertencem a um pequeno grupo, mas os prejuízos devem ser compartilhados com toda a sociedade.
E crescem as intervenções, as ameaças de conflito, em busca de mercados e fontes de energia. A liberdade de mercado? Significa somente que os grandes fazem tudo o que querem e os pequenos pagam a conta.