sábado, 31 de agosto de 2019

Privacidade e conhecimento

Vendo "Privacidade Hackeada" na Netflix e pensando na catástrofe analítica das esquerdas. Tudo que aparece ali, tirando os detalhes de tecnologia mais recente, já são processos conhecidos e analisados. O fenômeno dos indecisos afetando uma eleição já foi amplamente mapeado, inclusive em estratégias de mudança de comportamento, do qual o exemplo emblemático foi a edição do debate entre Collor e Lula pela Globo. A própria fundação Perseu Abramo editou livros com pesquisas sobre isso. Parece que ninguém leu. Eu escrevi sobre isso partindo de uma pesquisa de iniciação científica que orientei! A questão é que agora os recursos são infinitamente mais precisos e rápidos, contando inclusive com uma máquina religiosa de proliferação de valores. Vale assistir, mas também vale sair da postura cômoda de "Nossa! Não percebemos!". A esquerda também precisa começar a ampliar seu horizonte intelectual para além das amarras de sempre.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Carona

Ontem deixei o carro para uma revisão, afinal trocar de carro com essa economia? Melhor durar mais uns anos. Estava voltando para casa com o motorista da loja, fui na frente e no banco de trás mais dois clientes, um homem e uma mulher. O motorista já tinha me conduzido para casa em uma revisão anterior. É um senhor já passado dos setenta anos. A conversa estava amena, focada em questões de trânsito. Ele deixou a mulher em casa e partiu para o meu endereço. A conversa continuou somente entre nós, no banco de trás o outro passageiro em silêncio. O senhor fala então que sempre perguntam para ele se não vai parar de trabalhar, pois é aposentado tem alguns anos. Mas sempre oferece a mesma resposta: "Você tem mil e seiscentos reais para pagar a minha Unimed e a de minha esposa?". Ocorre que ele tem o convênio médico através da firma faz muitos anos, totalizando um pouco mais de seiscentos reais pelo casal. Mas se ele parar de trabalhar vai perder o benefício do desconto da empresa. E ali estava ele, trabalhando por absoluta necessidade. Dei corda e então partiu para cima do governo Bolsonaro, criticando tudo que conseguiu lembrar. Aproveitei, claro, para tocar em vários temas. As safadezas de um político malandro que nunca fez nada. O cabide de emprego da família. O desmonte dos direitos trabalhistas e a queda na renda. As mamatas e privilégios do Judiciário e dos militares, bem como sobre o STM (Supremo Tribunal Militar) e seu papel em proteger todos os absurdos... E sobre como nenhum de nós vai poder se aposentar de fato e vamos morrer trabalhando, possivelmente em horário de trabalho. Comentei sobre como a aposentadoria também envolve a necessidade de liberar vagas aos mais jovens, de como o SUS sofre com desvios que ocorrem dentro dos próprios hospitais e postos de saúde... Pelo silêncio no banco de trás logo percebi que o outro passageiro certamente votou nesse governo, mas não abriu a boca para comentar. Falei de propósito mesmo, para ele que estava em silêncio, na esperança de que pense um pouco. Desejei tudo de melhor ao senhor, que rapidamente disse ao outro passageiro que viesse para o banco da frente. Manter a dignidade não é fácil em tempos como os que estamos vivendo.

sábado, 22 de setembro de 2018

Bolsominions...

Acabo de ter outra experiência de contato imediato com Bolsominions. Eram dois, estavam na minha frente passando sua compras. No começo não deu para saber, afinal eles se misturam conosco e parecem conosco. Mas daí um começou a mostrar ao outro produtos que uma amiga estava comprando na Itália e vieram chavões clássicos: "lá tudo é mais barato/ nós mandamos tudo para lá...". Até aí podia ser só o velho discurso de sempre. Mas aí surgiu a expressão mágica que entregou tudo: "mas aqui os brasileiros preferem continuar votando nos comunistas". E veio mais: "O comunismo é um grande plano mundial, para ser aplicado nos países pobres, os países ricos querem isso"; "o governo comunista do PT acabou com tudo"... Isso em plena fila do atacadão, comprando um monte de coisas (que crise hein??). Quando a palavra comunismo foi repetida nem sei mais por qual vez percebi que, outra vez, eu seria sugado para o "debate político na fila do mercado"! É debate que não tenho nunca esperança de ganhar, mas que faço no propósito de informar as pessoas que estão redor, pois nessas horas meu lado italiano aflora e falo tão alto que todos escutam. Questionei o óbvio, que nunca fomos comunistas. Mas daí veio a cartada "secreta" dos malucos: o golpe iluminati e o movimento dos gramscistas... (!!!!!!!!!!). Tudo com aquele ar de sabedoria e perguntando se eu tinha ouvido falar. Tive que apelar e falar da história do Gramsci que, coitado, foi alçado à articulador de uma grande conspiração mundial. Na cabeça dos dois "gênios" o Gramsci estava vivo e articulando tudo... Ouviram a história rápida que contei com um olhar que já começava a ficar aparvalhado... Daí um começou a falar que eles eram estudados, tinham feito engenharia... Putz. Tive que falar o meu breve currículo. O outro deles admitiu que nunca tinha lido, aproveitei a brecha e entrei batendo para falar mais sobre o tema e dizendo que sim, eu tinha lido isso e muito mais (fazer o quê!!! tive que apelar para esse argumento). E veio mais iluminati... E então... Finalmente um deles admitiu que ele quer mesmo é ditadura militar, que são Bolixonaro e que gostam muito também do Dacilouco... Nessas alturas eu já estava falando com aquele meu olhar que é um misto de "vou rir de sua cara pois você é um debiloide" com um "eu tenho pena de você"... Tentei então o caminho de coisas mais palpáveis, para sair da loucura do ermitão da montanha (custo da democracia!). Abordei o básico, da última novidade: a alíquota única de 20% de IRPF... Um deles não tinha ouvido falar, o outro quis dizer que era mentira. Falei da entrevista e já comecei a perguntar se eles sabiam o que essa alíquota iria significar no salário de todos ali. Quiseram então argumentar que a esquerda e a direita são parte do mesmo movimento iluminati gramscista, que só o Bolixonaro é a saída... Questionei se tinham lido alguma das propostas dos candidatos. Um deles, coitado, quis mentir dizendo que tinha lido tudo... Para quê!! Questionei então quais eram as propostas do Bolixonaro, para qualquer coisa, que me dessem um único exemplo... Ficaram com aquela cara de constrangimento... Felizmente acabaram de pagar a compra e foram embora. Não foram rudes, foi uma despedida em que mutuamente desejamos o melhor, porém finalizei dizendo que espero muito que o candidato deles perca. Olhei para a pessoa que estava atrás de mim na fila. O cara já estava até rindo! Falou que esse povo é doido. Outros mais atrás dele estavam com cara de assustados, tentando entender essa coisa do IRPF. Expliquei bem alto o que isso significa, falei para entrarem no simulador de Receita Federal e verificaram o quanto vão pagar a mais. Falei então com a caixa, testemunha silenciosa do caso. Comecei me desculpando, mas que eu tinha que ter falado. E ela então alegrou o final dessa história! Disse para eu não me preocupar, que o Bolixonaro não vai ganhar, que esse povo é louco e não sabem o que estão fazendo. Não atingi os bolsominions mas consegui atingir os demais que estavam ouvindo . Missão cumprida por hoje.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Enjaulados

Uma lei que tornou mais rígida a fiscalização sobre os imigrantes ilegais nos EUA realmente foi votada e aprovada no período Clinton, um Democrata. Mas o projeto de lei era do já falecido senador Republicano Charles Willian Young ou Bill Young. Quem fez o lobby da aprovação da lei foi o partido Republicano de Trump. O que isso significa? Que quando você vai ler a lei, verificar a discussão, descobre que ela é uma entra várias outras, centenas na verdade, aprovadas em um grande bloco. O que se discute ali? O aumento do rigor da fiscalização além das verbas a serem destinadas. Basicamente um ilegal só pode entrar se estiver pedindo asilo político, o que conduz a um processo complicado. Todos os outros casos são barrados e levados para o processo de deportação. Todos. E são definidas regras bem claras para a deportação dos ilegais que já estiveram envolvidos em qualquer tipo de crime, ou mesmo que já cumpriram pena. Não se fala nada sobre crianças. Não passou, na cabeça desses políticos, que o imigrante ilegal também possuí família e que a mesma pode ter vindo com ele. O problema? No mesmo pacote eles discutiram algumas questões do "family unit program", para proteger as famílias... E como o Estado lida com crianças cujos pais estão presos? A primeira opção seria deixar com um familiar. Claro que tal opção não se colocou na prática para as crianças detidas pela imigração nos últimos anos. Jamais iriam deixar as crianças livres na América vivendo com familiares (alguns dos quais também podem ser ilegais...), frequentando escolas, aumentando, na perspectiva conservadora, o problema dos ilegais. Então resta colocar em instituições. Lembro que essas crianças, menores 18 anos, não podem ser punidas oficialmente pelas mesmas leis de imigração, são protegidas pelo family unit program. Elas são então encaminhadas para as instituições de abrigo, aquelas que estiverem com vagas disponíveis, em todo o território, já que oficialmente seus pais não possuem qualquer endereço nos EUA. E não há nenhuma política prevista para reunir as famílias novamente. Teoricamente elas podem ficar em tais instituições até os 18 anos, quando poderão passar pelo processo de deportação... E no início de tudo, lá nos setores de imigração, quando as crianças são detidas, não há espaço para receber famílias. Pois como todos os ilegais são, por princípio, criminosos, o que eles possuem para recebê-los são as celas, as gaiolas...A questão toda é que a administração Trump radicalizou a aplicação da lei de deportação. Quem tiver paciência divina pode se entreter decifrando os meandros da todas essas leis no link que deixo aqui.

Pequena elite

A pequena elite e seus problemas. O Pão de Açúcar está com aquela promoção de selos, na qual você gastando no mínimo mil reais ganha o direito de comprar uma panela. Beleza. Galera da pequena elite bateu panela então precisam renovar. Daí veio a greve dos caminhoneiros. Beleza também, heróis da nação, a pequena elite tem estoque em casa. Mas não tem panela nova importada no Pão de Açúcar pois ficou tudo travado nos portos e mesmo lá na França por causa do locaute dos caminhoneiros. Agora a rede está pedindo para você reservar as panelas que deseja, com um esquema de envio de sms com o código da loja e da panela (ahhh que alegria bater uma panela novinha importadaaaa!!!!). Tudo muito educada e simpaticamente explicado pelas funcionárias da loja. Até que chegou a pequena elite no balcão, uma senhora com jeitão de ter destruído umas vinte panelas em 2016. Vim buscar minha panela, disse ordenando. E ouvi das mesmas funcionárias a explicação que reproduzi sobre o sms... Absurdo!!!!!!!! Não é isso que está escrito aqui, enquanto bate na cartela de selos, documento de importância histórica de seu esforço de cidadã consciente e cumpridora das regras... Despejava sua fúria paneleira nas funcionárias, que nenhuma responsabilidade possuem na situação, mas que na cabeça da pequena elite certamente foram eleitoras da Dilma e do Lula... Não me aguentei e passei perto dela dizendo, sorrateiro: "Agradeça aos caminhoneiros", deixando uma candidata a um derrame para trás. Minha vontade era dizer que ela, inclusive, não tinha razão nem mesmo diante das regras da promoção, que devem ser lidas online conforme instruções da cartela, mais empolgante que o álbum da copa. A promoção simplesmente poderia ter sido encerrada por indisponibilidade das panelas conforme as regras. Mas houve um esforço estratégico da empresa em tentar agradar a pequena elite, que precisa de uma panela nova para bater. Ahhhh! Mas a pequena elite não lê regulamento. A pequena elite gosta mesmo é de gritar com o funcionário da loja, que não manda nada. A pequena elite não enxerga quando está recebendo um benefício, um agrado, pois acredita ser a portadora de direitos!!!! Gritam enquanto ostentam o papel que fala sobre regras que a pequena elite não leu e nem vai ler. Ler regulamentos? É para o funcionário chique, o advogado. E deve estar agora espalhando seu ódio no zapzap da família e das amiguinhas da pequena elite.

domingo, 5 de novembro de 2017

Em um copo de cerveja

Conversas que nos fazem entender os brasileiros... 9 e pouco da manhã de uma sexta-feira, a universidade emendou o feriado da quinta então fui levar o carro para lavar, algo que só faço uma vez a cada dois anos. Deixo o carro com o pessoal da lavagem e vou me sentar para esperar, ler um pouco mais (como sempre). No local há um boteco/restaurante, com uma mesa de bilhar. Sentados à sombra de uma árvore alguns homens conversavam, não eram parte da equipe de lavagem. Chega outro homem, sujeito grande, cheio de bomba como dizem, e vai logo brincando com os demais que estavam na sombra da árvore. Engatam conversa e rola uma cerveja tomada na mesa de bilhar. Começam a reclamar da situação, do preço de tudo, dos impostos que pagamos, dinheiro que acaba na mão do governo e dos políticos, da dificuldade de se arrumar trabalho. Usaram a situação do dono do boteco/restaurante, que tinha que pagar muitas contas e impostos para manter o negócio. Um deles, um cara também grande mas sem bomba, conta que sua mulher reclamou um dia que não conseguia dormir por causa do ronco do companheiro. Ele revidou a reclamação dizendo que também não dormia, pois a esposa não estava trabalhando e ele era responsável por arrumar dinheiro para pagar todas as contas da casa, que eram muitas preocupações na cabeça. O rapaz grande bombado concluiu: "por isso que um homem tem mesmo que perder a cabeça". Nova cerveja. Eu sentado em um canto, pensando que ainda não eram 10 horas da manhã e os caras estavam ali, parados, tomando cerveja, enquanto a esposa do sujeito grande não bombado devia estar trabalhando cuidando da casa. Pensei também no dono do boteco/restaurante, que não estava presente, enquanto eu observava, na cozinha, uma senhora correndo com o preparo do almoço ao mesmo tempo em que entregava as cervejas. No Brasil as pessoas percebem que algo está errado, mas não sabem o que é, então falam dos políticos, do governo, dos impostos, coisas que no fundo não entendem, mas que ditas e acolhidas em grupo reforçam a sensação de sabedoria, ao mesmo tempo em que não são capazes de perceber as mulheres trabalhando ao seu redor enquanto eles estão parados na manhã de uma sexta-feira reclamando da vida em um copo de cerveja.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A entrevista que nunca saiu

Fui procurado para uma breve entrevista sobre a reforma trabalhista. Eu faria a crítica e alguém faria a defesa e tudo deveria sair em um blog de um profissional da mídia conservadora... Sei que essa afirmação se aplica à praticamente todos no atual cenario, mas enfim! Recebi as perguntas por mensagem e as respondi depois da greve geral. Entrei em contato e coloquei apenas uma condição para minha participação, totalmente não remunerada como sempre: minhas respostas precisavam ser publicadas na íntegra, pois só faziam sentido deste modo. Bom... Repentinamente o interesse sumiu! Mas como meu trabalho gratuito já estava realizado segue para apreciação! Eram três eixos a serem respondidos: 1- elencar os elementos prejudiciais da reforma aos trabalhadores; 2- avaliar as relações entre a crise política e a reforma trabalhista; 3-  refletir sobre a necessidade das reformas para promover maior harmonia nas relações entre patrão e empregado. As respostas estão em sequência compondo um único texto.

(1) Primeiro é preciso começar por lembrar o perfil do congresso nacional. com as bancadas empresarial e ruralista sendo as predominantes, com 190 e 139 deputados respectivamente. Sindicalistas são apenas 46. Então o discurso de uma lei ou políticas que somente favorecem os trabalhadores não se sustenta na própria formação histórica do Congresso, que já foi inclusive mais elitista em outros momentos. O problema não se encontra somente nas novas leis aprovadas isoladamente, mas no seu conjunto geral. Basicamente todos os aspectos da CLT foram flexibilizados: jornada de trabalho, férias, hora de almoço, tudo pode ser negociado. Chegaram ao ponto em que mulheres grávidas poderão atuar em atividades insalubres bastando para isto um simples atestado médico. Em seu conjunto as novas regras não eliminam a CLT mas basicamente a colocam de lado, ela deixa de ser aplicada. Não é eliminada, mas alguém consegue mesmo imaginar algum patrão querendo utilizar a CLT para seus contratos de trabalho quando ele poderá simplesmente negociar diretamente com o funcionário, sem nem mesmo ser necessário a mediação de um sindicato? Somente em um reino de fantasia, não em um país que ainda conta com trabalho escravo! O que significa para o trabalhador? Que ele perde, na prática, o acesso à assistência jurídica do sindicato ao negociar diretamente com o patrão, o qual certamente ainda terá a assistência de advogados. Imagine alguém que não conhece seus direitos e não possui assistência jurídica sentando para assinar um acordo com um patrão completamente assessorado! E como será um formato legal de contrato a justiça não poderá fazer nada! A CLT não poderá ser invoca pois prevalecerá o acordado previamente entre as partes. Ao invés de termos realizado uma discussão sobre as condições trabalho das novas profissões simplesmente optaram por nivelar tudo! Um operário de chão de fábrica não tem as mesmas condições de trabalho e as mesmas necessidades de alguém que trabalha à distância, com computador! E certamente não ganha o mesmo salário! O projeto aprovado trata desiguais como se fossem iguais e isto é um retrocesso enorme.
(2) O atual momento político apenas reforça a ilegitimidade das medidas aprovadas. Estamos em uma crise política enorme, com um presidente com 4% de aprovação e que chegou ao poder em um golpe. Sem a queda do governo Dilma dificilmente tais medidas estariam sendo aprovadas. E não são necessárias em sentido nenhum. É tudo uma grande farsa! Os políticos que estão no governo são praticamente os mesmos que estavam antes! Se as políticas de Dilma estavam erradas foram eles que as aprovaram! E foram eles mesmos que pararam de votar qualquer coisa no auge da crise política, inviabilizando qualquer medida de contenção da crise econômica. Agora aparecem gritando que é tudo responsabilidade do governo anterior, que já caiu há mais de um ano! Mas eles eram o governo anterior! Sempre foram. E a promessa dos empresários que hoje defendem a reforma trabalhista era, justamente, que a recuperação econômica aconteceria em um mês após a derrubada de Dilma. Agora defendem que o trabalhador é o problema, que ele custa muito caro. Só não vemos qualquer um deles falando em aumento salarial!
(3) Harmonia? Onde? O que está acontecendo é uma chantagem, uma ameaça. Os defensores da reforma afirmam, sem disfarçar, que é melhor flexibilizar do que perder o emprego! Que espécie de harmonia é essa? Você aponta para o trabalhador e diz que a legislação trabalhista deve mudar ou ele vai perder o emprego e encerra a discussão, sem dar espaço para nenhuma demanda dos próprios trabalhadores! É o retrato de como serão verdadeiramente as negociações diretas entre funcionário e patrão! E se a reforma não passar o que as empresas vão fazer? Vão demitir todo mundo? Vão deixar de explorar o mercado consumidor brasileiro? É essa a ameaça? Qual é o patrão que vai, de fato, contratar mais trabalhadores somente pelo fato de que o preço da mão-de-obra caiu? Ele tem um trabalhador realizando uma certa função e vai contratar dois para o mesmo trabalho só pelo fato dos custos trabalhistas terem diminuído? Empregos são gerados com aumento do mercado, a produção aumenta quando a demanda aumenta e não quando o trabalho é mais barato! Na verdade um trabalhador ganhando menos e sendo responsável pelo recolhimento de seus próprios direitos é um consumidor com menos dinheiro! Para os grandes empresários, que hoje estão felizes com o aumento das exportações, isso não é um problema pois seu mercado está fora do Brasil. Para aqueles que dependem do mercado interno não há nenhuma melhoria. A legislação trabalhista poderia ser debatida, como qualquer lei, mas jamais do modo como foi feito, por um governo sem qualquer apoio popular. E certamente jamais culpando a justiça do trabalho, os sindicatos e os trabalhadores! E, não esqueçamos, em toda essa vergonha, ninguém falou absolutamente nada sobre melhorar os salários, sobre saúde e educação pública. Nunca estivemos mais distantes de qualquer harmonia.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Memória de quando tínhamos direitos...

Lembrei da madre Maria. Era diretora do colégio religioso onde estudei com bolsa pois minha mãe trabalhava ali como professora. Madre Maria era rigorosa. Quando ficava sabendo que um professor não tinha matriculado os filhos no colégio chamava o mesmo para conversar. É que ela achava um absurdo quando algum dos seus professores não matriculava ali seus filhos. Dizia que era a melhor prova da qualidade de ensino de uma escola: que todos os professores tivessem seus filhos estudando nela! E todos tinham bolsa, conforme determinava o acordo coletivo. Lembrei dela, muito, quando vi que o sindicato patronal não assinou a convenção coletiva dos professores, que venceu e deixou de valer levando com ela a obrigatoriedade das bolsas para filhos de professores (além de vários outros direitos). Palmas para você, professor, trabalhador, que aplaudiu o golpe! Imbecil.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Generalizações

As redes sociais ajudaram a proliferar categorias genéricas que não dizem nada. Nenhuma novidade, as pessoas sempre fizeram isso. Falamos "os brasileiros", "os americanos", "os japoneses", "os alemães", como se todos os cidadãos destes países fossem iguais, pensassem igual. Mas creio que a principal categoria genérica de hoje é a dos "petistas". Sempre que alguém quer criticar algo na política, na direita e na esquerda, surge a categoria. Criticou o desmonte da constituição promovido pela ação do Moro? Petista! Elogiou o governo Lula? Petista! Pediu #ForaTemer? Petista! Falou em golpe? Petista! Daqueles identificados com a direita mais furiosa não se espera outra coisa mesmo além disso. Mas o interessante é o discurso que circula nas esquerdas. Toda hora aparece alguém para afirmar que "os petistas" precisam parar de acreditar que o PT não fez nada de errado. Que a esquerda precisa se libertar do PT. Que após cada crítica feita ao atual governo ilegítimo precisa afirmar que "não é petista", já assumindo que a expressão assumiu carácter generalizante de algo ruim... Interessante. Não conheço nenhum petista ou simpatizante, do meu círculo, que não seja crítico do que aconteceu no PT nas últimas décadas. Que não veja com tristeza nomes ligados ao partido, muitas vezes nomes obscuros para a grande maioria dos militantes, envolvidos em denúncias diversas. Que não tenham se decepcionado com certas decisões do partido. Mas para quê saber disso! Melhor fazer como a direita e generalizar. Ou então falam para a pessoa abandonar, partir para outra... Interessante que isso tudo vem acompanhado de uma crítica bem pouco reflexiva sobre a questão da política de coalizão. É evidente que existem problemas em tal modelo, mas são problemas sempre presentes na política, em qualquer sistema político! E qual é alternativa oferecida? Na direita ressurge dos esgotos o discurso da ditadura, do eu mando, eu bato, eu mato. Em setores da esquerda um purismo ideológico que imagina que vamos conseguir passar para algum tipo de comunitarismo de assembleia... E o diálogo, o respeito ao diverso, a busca de entendimento em meio às diferenças não é justamente a formação de coalizões? A corrupção como fenômeno social transcende os modelos de governo, pois pode e está presente em qualquer lugar. É verdade que o PT precisa se recriar, mas não é menos verdadeiro isto para todos os demais partidos de esquerda, para todos que estão indignados com o desmonte de direitos tão duramente conquistados. Tempo de recriarmos a nós mesmos e retomarmos, em todos os espaços, o que nos foi roubado.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Nas paredes

Em toda a história, toda mesmo, desde que o homem começou a se expressar, ele pinta paredes. Nas cavernas. Em Roma, no coliseu, os gladiadores escreviam nas paredes seus recados aos poderosos... Nas ruas da França da Revolução. Em todas as guerras mundiais. Em toda trajetória do movimento operário. Nem toda pixação é um ato aleatório de destruição do espaço público. Ela é também uma forma de manifestação, de setores populares tomarem o espaço público com seu recado. Uma forma de se expressar quando tudo falha. Mas aqui no Brasil juntamos tudo num pacote bipolar: grafite é bom/pixação é ruim. Como se toda pixação fosse a mesma coisa. Como se a arte fosse limitada à uma forma única de se expressar. E dá-lhe tinta em tudo. Como se o cinza do Doria também não fosse uma forma de expressão do autoritarismo da atual prefeitura de São Paulo. Por que cinza? Por que não várias cores? É...

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ao invés...

Ao invés de combater a corrupção o Brasil optou por acabar com as estatais, ao invés de uma reforma política o Brasil optou pelo autoritarismo, ao invés de acabar com o corporativismo o Brasil optou por acabar com os funcionários públicos, ao invés de investir em Pesquisa e educação o Brasil optou por acabar com as universidades públicas, ao invés de taxar as grandes fortunas o Brasil optou por acabar com direitos dos mais pobres... Era sobre tudo isso e muito mais que estávamos falando quando as panelas soaram e os patos dançaram nas ruas, deixando todos surdos à razão e abertos para o fascismo fácil e burro dos Bolsonaros.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Recado das urnas...

A primeira coisa que comentei com meus alunos quando as manifestações de junho de 2013 ocorreram foi o seguinte: o número de pessoas nas ruas não era representativo da população brasileira. Na estimativa mais otimista, daquelas pseudo lideranças, tivemos 2 milhões de pessoas nas ruas em todo Brasil. É muito quando se olha o número isolado. Um nada se lembramos que já somos mais de 200 milhões de brasileiros. Um porcento da população nas ruas não é uma revolução. Revolução foi de fato no Egito, que em uma população de 80 milhões de pessoas colocaram cerca de 17 milhões nas ruas. Aqui não era nada tão grandioso. Mas a mídia tornou grandioso. As redes sociais ferveram. Tudo estimulando a falsa sensação de que algo estava mudando. Não estava. Não estou julgando a boa vontade de quem foi para as ruas, mas as manifestações eram mais importantes como um possível início de algo que não ocorreu. E parece que não vai ocorrer. Em 2013 as esquerdas tiveram uma oportunidade que não abraçaram. A direita e a oposição golpista (PMDB-DEM-PSDB... ) usaram bem. Tão bem que estão no poder agora.
2013 foi utilizado como um evento de destruição do PT e do governo Dilma pelos donos do poder de sempre. Qual era o interesse da Globo em cobrir as manifestações? Qual era o interesse da Globo em continuar cobrindo qualquer manifestação contra o governo Dilma e o PT, mesmo quando só se reuniam 20 pessoas com faixas fazendo dancinha? A Globo ajudou a estabelecer o discurso da crise, e o que já era um problema tomou dimensão maior. O Congresso não votou nada. Agora o mesmo Congresso vota tudo. O Judiciário focou no PT e assim continua, com juízes que recebem prêmios e jantares de lideranças do PSDB... Parte das esquerdas, com críticas corretas ao PT, decidiu que era melhor deixar o PT apanhar. Só que não contavam que o ódio ao PT também é medo das esquerdas...
Nesse meio tempo veio uma reforma eleitoral. Sorrateira, com o dedo do Cunha. Primeiro veio o fim do financiamento de empresas. Tudo bem. Mas não regularam o uso do capital privado, de pessoas físicas, então candidatos ricos, com mais dinheiro, puderam fazer uma campanha mais rica. O candidato com dinheiro podia gastar quanto quisesse de seu próprio capital desde que previsto nas contas da campanha. E quem são os candidatos ricos? Os velhos políticos de sempre, inclusive alguns que se dizem novos mas sempre apoiaram os velhos... Os novos? Os que podiam representar uma mudança de rumo? Não tinham dinheiro e não foram eleitos. Pelo menos na maior parte dos casos. Outra mudança esperta foi a obrigatoriedade dos candidatos atingirem pelo menos 10% do coeficiente eleitoral para serem eleitos. Novamente pequenos e novos candidatos, alguns até conhecidos, foram atingidos. Quais são os candidatos conhecidos, que recebem votos diretos? Repito: Os velhos políticos de sempre, inclusive alguns que se dizem novos mas sempre apoiaram os velhos... Qual número será lembrado? Do candidato que não teve recursos de propaganda ou do que gastou uma pequena fortuna? Para participar de debates na televisão o partido deve ter no mínimo 9 deputados eleitos. Mais uma pancada nos pequenos. Agora falam em reforma política, reduzindo o número de partidos por decreto... Só querem que restem os grandes, mas excluindo o PT, que querem exterminar. E qual é o motivo? O PSDB já deixou claro: querem o parlamentarismo. E um parlamentarismo com poucos partidos. Daí o povão vai poder continuar votando em quem quiser, não vai importar.
O resultado das eleições municipais, com o avanço de partidos do golpe e da direita somente confirma que 2013 não representou uma mudança para melhor, mas o retorno dos conservadores de sempre, que de fato nunca saíram do poder. Lembram que eles também estavam nas ruas? Batendo em quem vestia vermelho ou camiseta de partido? E as esquerdas? Seguem sem rumo.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Perdemos todos

Na votação de ontem perdemos todos. Todos os que trabalham, recebem salário, tentam estudar, querem se aposentar. Todos que vão sofrer com o assassinato da CLT. A esquerda provou que é seu maior inimigo. Que preferem crescer individualmente. Se a direita sacrifica o povo pelo capital a esquerda o deixa ser sacrificado em nome de uma suposta defesa de princípios abstratos e variados. Triste. O desconhecimento é a norma. Algum tempo atrás circulou vídeo de debate entre a presidente da UNE, Carina Vitral, e o escroque Kim Kataguiri, do MBL. Muitos elogiaram como ela destruiu o sujeito. De fato. Porém ela também revelou um profundo desconhecimento das teorias que a inspiram. Ele não sabia nada, mas não era papel dele saber já que é golpista e pseudo liberal. Fui ver a entrevista esperando articulação teoria e prática e não encontrei, de lado nenhum. Claro que no final ela foi melhor, mas em função principalmente das profundas limitações do antagonista. E como é possível perdermos para tais golpistas? Pois é. Ontem perdemos novamente. O eleito afirmou em entrevista que sua vitória não representava uma derrota de Cunha. O Judiciário tem simpatias e afinidades explícitas com o PSDB. O presidente da Câmara é do DEM. O do Senado do PMDB, assim como o golpista na presidência da República. E todos agradeceram ao PSDB pelo apoio. É. Parabéns para a esquerda, que conseguiu ficar de fora completamente, no canto, chamada explicitamente de minoria, ainda que deseje ser a defensora da maioria da população.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Crise e mérito

A Malwee fechou uma unidade em Blumenau e demitiu 300 funcionários. Como já virou rotina colocaram a culpa na crise. Mas o interessante é ninguém ter lembrado dos últimos anos da empresa. Em 2011 a empresa passou de pai para filho. O herdeiro assumiu a presidência e realizou o plano de abrir lojas de varejo da marca. Estilo Hering. Naquele ano a empresa havia crescido 22% e projetava crescer 25% em 2012. O que houve? Tudo culpa da Dilma? Na mentalidade tacanha dos nossos falsos liberais parece que sim. A unidade de Blumenau representava 3% da produção da empresa. Então já começamos vendo que a empresa cresceu pelo menos perto de 40% alguns anos atrás e agora encolheu 3%. Quando cresceu não deve ter dado um aumento proporcional de salários aos seus funcionários, mas quando encolheu demitiu. Existem funcionários falando de má gestão e de mudanças de sistema na empresa que geraram atrasos e cancelamentos de pedidos. Eu lembro quando a Malwee era uma marca de roupas de boa qualidade, característica que não se manteve, pelo menos não em todas as linhas da empresa. O setor têxtil é altamente competitivo, com muitas empresas nacionais e internacionais, disputando o mesmo mercado. As pessoas não pararam de comprar roupa. Ninguém está andando pelado. O mercado saturou de ofertas de roupas de baixa e média qualidade, que não vão mais, como antigamente, ficar para os irmãos mais novos... Elas não duram tanto, viram pano de chão. Com essa realidade o consumidor opta pelo mais barato mesmo. Quem pode pagar consome outras marcas. Mas é tudo culpa do PT e da Dilma... Crescimento econômico sempre vem acompanhado de aumento de competitividade. E diante do quanto a empresa cresceu antes essa notícia incomoda. Pois ninguém falou sobre os lucros. Na seguinte linha. Uma pessoa abre uma empresa para ganhar dinheiro. Então ela precisa ganhar dinheiro para manter a empresa e dinheiro para se manter. O lucro começa depois que a empresa ganha o necessário para se manter. Esse lucro não é todo investido na empresa. Ele vai para uma conta do dono (de seus sócios e acionistas se houverem), provavelmente em outro país, onde será aplicado no mercado financeiro buscando outros rendimentos. É o dinheiro dele. O pagamento que recebe de sua própria empresa. Não vejo acontecer com essas grandes empresas o discurso de vamos empregar os recursos de nossos lucros para manter os empregos e melhorar a situação. Mas vemos a ostentação permanente. Eike Batista entrou em decadência e ainda tivemos noticias de seu filho comprando carros importados de mais de um milhão de reais... Há um capital que fica com os proprietários e que não volta para a empresa e nem para o mercado nacional. No discurso sobre a crise todo empresário aparece como empreendedor e competente sofrendo diante do Estado incompetente... O sucesso da empresa é mérito pessoal, o fracasso é culpa dos outros. Nada de novo no discurso do capital que segue gerando suas crises estruturais que sacrificam os pequenos para assegurar o conforto daquela minoria.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Depressão na pós-graduação

Não estou aqui para defender a mercantilização da pesquisa acadêmica. Nem para dizer que os pós-graduandos com sinais de depressão não precisam de apoio. Mas a questão de fundo passa por toda uma reformulação da estrutura acadêmica que é muito maior do que a pressão por publicar. Fazer ciência é uma atividade pretensiosa. Você quer descobrir, encontrar novas respostas, novas formas de fazer, revelar o que ninguém viu. É pretender muito! E hoje, com as tecnologias de comunicação e compartilhamento, a pretensão é ainda maior! Pois para descobrir algo novo no mundo de hoje não é fácil! Há uma infinidade de textos para serem lidos sobre tudo! Então há uma pressão normal em toda pesquisa nesse sentido: ser original e contribuir para o crescimento do conhecimento da humanidade não é tarefa simples! Em qualquer área diga-se! Então sempre teremos cientistas com depressão, do mesmo modo que temos poetas com depressão, artistas, cantores, etc... Todos que tentam criar algo novo. O problema então não é exatamente esse. O problema é uma estrutura, relacionada sim ao sistema produtivo do capital, no qual se entende que a pessoa precisa ser genial sempre e produzir novidades constantemente. É impossível! O erro, este aliado indispensável do avanço da ciência, aparece como pecado mortal! Toda pesquisa precisa dar certo e ponto! Esse é o lema! Mas ele não é real! Toda pesquisa parte de uma hipótese, que pode ou não ser verdadeira em escala! Ou seja, o pesquisador pode chegar no final do trabalho e perceber que sua hipótese estava errada, ou parcialmente certa, enfim! Isso não deveria ser um problema, pois os erros de uma pesquisa auxiliam no desenvolvimento das próximas! Mas na estrutura criada não é bem assim! A não comprovação da hipótese aparece como pecado que reprova o pesquisador na banca final. Ele não recebe o título depois de anos de trabalho. Daí uma parte da dificuldade dos alunos entenderem a importância da descrição dos métodos, das etapas, pois o meio acadêmico afirma que, no final, o que importa é o resultado. Claro que essa realidade não ajuda a pessoa que já está depressiva diante da tarefa que se colocou de produzir conhecimento... Mas não para aqui! Não! Temos as revistas, os índices de qualidade! As boas revistas, de qualidade elevada, costumam reservar seus limitados espaços para os pesquisadores de ponta, famosos, que vão ajudar a própria revista. Ou para os orientandos de tais pesquisadores, afinal estes frequentemente são os pareceristas dessas mesmas  revistas... E são poucos exemplares por ano. É uma briga de grupos: eu publico o seu você publica o meu... Eu cito você e você me cita. Eu aprovo seu aluno aqui você aprova o meu aí. E o erro possível e necessário ao avanço da ciência se consolida como o pecado que condena o pesquisador ao ostracismo intelectual! Claro que não é assim sempre, que existem os casos que fogem de tal realidade. Mas a existência dessa realidade é suficiente para por todo o sistema em pressão. E dá-lhe depressão!

domingo, 31 de maio de 2015

O valor do trabalho

Notícia da Folha de hoje afirma que "Um trabalhador americano produz como quatro brasileiros".
TÍPICA NOTÍCIA RIDÍCULA! Pois só faltou explicar que um trabalhador norte-americano que receba o mínimo pago nos EUA ganha 10 vezes mais que o valor do nosso salário mínimo (calculados com o câmbio de hoje). Então a verdadeira notícia deveria dizer que precisamos de dez trabalhadores brasileiros para ganhar como um trabalhador americano. Ou então revelar que para essas empresas vale muito a pena vir para o Brasil! Pois contratando quatro brasileiros elas vão pagar menos por mês do que pagariam para um norte-americano e terão a mesma produtividade. No final das contas, mesmo que precisem contratar mais brasileiros elas ainda economizam cerca de 60% com custos de mão-de-obra ao se instalarem aqui!!! E ainda querem que o trabalhador brasileiro produza como um norte-americano mas ganhando como um brasileiro o que elevaria tal economia para 90%!! E estou subestimando os números!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eleições 2014: Parem de dividir o Brasil entre nordeste e sudeste!

Segue minha contribuição para a galera que está insistindo em dividir o Brasil entre nordeste e sudeste. Fiz com base nos dados do TSE, disponíveis para qualquer pessoa. Claro que é somente uma aproximação, não encontrei uma ferramenta adequada para dividir os estados entre vermelho e azul conforme as porcentagens. Mas peço que entendam que não é verdade, de maneira alguma, que as eleições revelaram um Brasil oposto entre o nordeste e o sudeste! Somente pessoas toscas podem pensar assim! Então vamos perceber que a diversidade de opiniões está bem ao nosso lado e parar com as postagens preconceituosas. É feio e revela a sua preguiça de procurar se informar!

É possível encontrar imagens parecidas pela rede, mas quis mostrar que qualquer pessoa pode ir atrás da informação correta e produzir um retrato da realidade melhor do que este que anda circulando por ai...

domingo, 3 de agosto de 2014

Pela memória do movimento estudantil de 1996


Em 1996 o deputado estadual do PSDB, Vaz de Lima, criou projeto que visava começar a cobrar mensalidade dos estudantes das universidades estaduais paulista. Em junho do mesmo ano, quando o projeto seria votado, nós, estudantes das universidades públicas de São Paulo, organizados em nossos diretórios acadêmicos, lotamos quantos ônibus pudemos e ocupamos as galerias da câmara dos deputados. Houve uma tentativa de defesa do projeto mas nada se ouviu diante do barulho das galerias. A emenda acabou sendo retirada. Vitória do movimento estudantil que nunca saiu nos jornais. Mesmo. Procurei hoje no acervo da Folha de São Paulo e tudo que encontrei são as matéria que aqui divulgo, falando apenas sobre o projeto. O único comentário sobre a retirada do projeto foi feito em um artigo do dia 27 de junho de 1996, mas que não fala do movimento que nós estudantes realizamos, apenas sugerindo que teria sido uma manobra política por conta da proximidade das eleições. E assim ficou registrado nos anais da história (sim, os arquivos dos jornais ainda serão fontes históricas...) que a proposta surgiu e foi retirada por mero interesse político. Os estudantes? Nem uma palavra sobre nós que ali estivemos. Para o registro futuro é como se nada tivesse acontecido. Então decidi deixar na rede, pelo menos, o registro daquele movimento que reverteu uma punhalada no ensino público, em um momento em que outras punhaladas do mesmo partido estão sendo articuladas. Nós nunca estivemos dormindo.



sexta-feira, 4 de julho de 2014

Igualando o inigualável

O colunista da Folha, Samuel Pessoa, publicou texto afirmando que a cobrança de mensalidade nas universidades públicas teria o mesmo sentido da cobrança do pedágio urbano. O colunista, psdebista, confunde as coisas. Andar de carro é um direito inerente ao direito de consumir e não do de locomoção. Todos são livres para se locomover, como pedestres. Todos que possuem dinheiro podem comprar um carro, o que facilita a locomoção mas gera problemas urbanos e sociais, daí o pedágio urbano como solução que se adota em grandes metrópoles pelo mundo. O ensino não se enquadra na mesma categoria. A sociedade precisa de trabalhadores nas fábricas, de agricultores, de médicos, de advogados, de professores, de engenheiros, enfermeiros etc... É sim de interesse da sociedade que existam pessoas com formação universitária. A educação não é uma mercadoria apesar do que pensam e fazem alguns gestores de redes de ensino. O acesso à educação significa o acesso ao conhecimento produzido coletivamente pela humanidade. É um direito. Não é como o direito de dirigir um veículo. Ter acesso à  educação não aumenta o buraco da camada de ozônio, não polui o ambiente, não gera congestionamentos. A comparação feita pelo colunista é digna de repúdio, mas revela bem o tipo de mentalidade que se arrasta no governo do estado de São Paulo.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Quem sempre esteve nas ruas...

Vamos lá: lembram do referendo sobre o desarmamento? Então deixem-me contar uma historinha. Na época do referendo sobre o desarmamento participei de um debate no colégio em que eu lecionava, contando inclusive com a presença do general Mário de Oliveira Seixas (que era Secretário de Segurança Pública de Campinas). Foi muito bacana mas após o referendo, em que defendi o desarmamento, um aluno, que defendia a posse de armas, se aproximou para me sacanear. Dizia que agora sim as coisas iam mudar, que o povo havia falado, enfim... Disse para ele que infelizmente isso não era verdade. Que os grupos que haviam se posicionado favoráveis à continuidade da situação sobre as armas no Brasil não eram os grupos que tinham disposição para estar nas ruas protestando, pois os grupos que tradicionalmente exercem tal direito eram justamente aqueles favoráveis ao desarmamento. Junho de 2013 foi parecido. Um momento que veio, muita gente que nunca tinha saído de casa foi para as ruas e agora quem está nas ruas são justamente os grupos organizados com suas reivindicações específicas, que sempre estiveram nas ruas (e tiveram que aguentar aquele papo cretino de "gigante que acordou"...). Atrevo-me até mesmo a dizer aqui que as manifestações aglutinaram tantas pessoas pois a motivação inicial, os vinte centavos da passagem de ônibus, era uma bandeira que não ameaçava o status das classes estabelecidas. Bem diferente de quem luta por moradia ou terra! Ou de quem está em greve! No limite do absurdo a passagem de ônibus mais barata era um alívio no bolso do patrão que paga a passagem da empregada doméstica ou dos seus funcionários na empresa! Claro que havia uma galera pensando em outras coisas no ano passado, mas, para variar, não eram a maioria. Agora falam do clima da copa, que não estamos sentindo. O que nos fazia sentir o clima da copa antes? Justamente a presença incessante da copa na mídia! Todas as emissoras lançavam suas musiquinhas, passavam propagandas e mais propagandas sobre o evento. As empresas patrocinavam brindes da copa. Agora a copa aparece na mídia somente para ser criticada e as empresas não parecem tão dispostas a gastar. Mas andando pelos bairros da cidade vejo as casas com bandeiras do Brasil na janela, alunos trocando figurinhas, pessoas andando com as camisetas do seu time e da seleção, enquanto tantos outros aguardam que a tal bandeirinha afastada por ter cometido os mesmos erros que tantos homens decida posar para a Playboy... Temos tanto para avançar e manifestar-se é certamente necessário. Mas convenhamos: manifestação contra a copa? Qual é o propósito dela hoje? Com tão pouco tempo para o evento? Prejudicar o evento serve somente ao propósito de atingir o governo. É até compreensível no cenário da disputa partidária. Mas a manifestação sobre a Copa não melhora nada do cenário geral brasileiro. Deixar de realizar o evento não vai melhorar a educação e a saúde. É certamente um movimento político e bastante partidário. 5000 professores se manifestaram em São Paulo contra o governo paulista e 1500 pessoas contra a Copa e qual grupo apareceu mais na mídia? É sim uma disputa política e temos hoje, felizmente, espaço para que ela se realize.