segunda-feira, 8 de julho de 2013

Médicos saem às ruas mas não vão ao Norte e Nordeste...

Saiu assim na Folha de S. Paulo:

Brasil desiste de vinda de 6.000 médicos cubanos

Notícia preocupante. Vamos lá dizer os motivos. As reclamação dos médicos brasileiros que foram para as ruas é de que o necessário é que haja investimentos na saúde, que a carreira seja atrativa, que então não faltarão médicos nas regiões mais pobres do Brasil. Mentira pura! Se houvesse essa tal estrutura nessas regiões elas não seriam o que são hoje, então não iriam precisar atrair médicos de outros estados. Essa estrutura de que falam demora para construir, ao contrário do que algumas mentes toscas pensam não se reforma uma situação ruim por decreto ou simplesmente comprando materiais, como bem demonstram algumas obras de hospitais aqui mesmo do Sudeste que estão paradas com equipamentos estragando. E enquanto não se constrói tal estrutura o que pedem ao povo? Que espere! Que aguarde que os abnegados profissionais médicos irão para lá quando as coisas forem melhores! Balela pura! Quem vive no Sudeste não quer ir morar nas outras regiões por vários outros motivos! Já se divulgou bastante que nem mesmo salários altos atraíram médicos para os concursos na região Norte e Nordeste. Por que? A verdade é simples: não eram altos o bastante! Um salário de 20 mil reais é pouco para os padrões almejados por uma grande parte dos que hoje cursam medicina. A média salarial de suas famílias é muito maior do que isso, principalmente entre aqueles que estudaram nas instituições privadas. Não é só a estrutura de trabalho o problema, é a estrutura de vida, a cultura diferente, tudo aquilo com o qual estão acostumados e vão ter que deixar de lado. Isso tudo vai mudar por decreto? Já sabem a resposta.
Existe também o problema da tal "pressão" que veio das ruas. As coisas estão se misturando. Sair pedindo mudanças e conseguir dobrar parte dos políticos é uma coisa. Mas agora parece que estamos diante de uma situação extrema: saio para a rua e não importando a minha real representatividade quero ser atendido! Ainda que não faça o menor sentido dentro do quadro geral da Nação! Já ouvi mais de uma vez que tudo não passava de uma articulação para um golpe comunista que esses médicos de Cuba iriam ajudar a preparar! Não faz o menor sentido! A galera que sai de Cuba para trabalhar como médico reclama do regime cubano justamente por não lhes permitir acumular dinheiro! A própria matéria que compartilho mostra isso! Esses médicos cubanos não são agentes de propagação do comunismo! Claro que pode haver alguns mais próximos de tal ideal, mas isto não é diferente do que temos aqui mesmo no Brasil! E tem outra: se os comunistas forem aqueles que no final das contas vão até lá atender a população pobre que precisa um viva para eles! Está com medo? Sair em passeata na avenida paulista com dispensa de trabalho e táxi pago pelos organizadores é fácil. Difícil é encarar a realidade. Existe utilização política da questão? Claro! É óbvio! Em tudo que fazemos há interesse político, de um lado e de outro e no meio também!
Agora a parceria se voltou para Portugal e Espanha. Quero ver alguém começar a gritar! Duvido. Parece que não conseguimos nos livrar do estigma da colonização! Cubanos e bolivianos, ex-colônias como nós mesmos, não podem vir, mas europeus descendentes das nossas antigas metrópoles podem. É o ressurgimento do desejo da elite nacional (sim, os médicos estão bem no meio de tal elite e nem preciso dizer os motivos) de tornar o Brasil mais europeu? No início do século XX chamaram isso de branqueamento e sabemos (pelo menos alguns de nós...) bem no que resultou. Não temos disposição de ir até tais regiões, então chamamos os europeus para mais uma "missão civilizatória nos trópicos" antes que ela vire um reduto de comunistas latinos!
Conheço profissionais médicos que tenho verdadeiro orgulho de ter como colegas e amigos. Pessoas que não se enquadram na descrição que aqui apresento. Tenho certeza que existem outros. Mas a voz que sai para as ruas nem sempre é a voz da real necessidade e nem mesmo é sempre a voz da maioria! Negar os problemas da saúde pública seria uma tolice, mas imaginar que é preciso resolvê-los todos primeiro antes de começar a atrair médicos para tais regiões é uma insanidade! A maioria das unidades de saúde são geridas por médicos! A gestão dos hospitais está nas mãos de médicos! O ministro da saúde é médico e por todo o seu ministério existem médicos! Precisamos então de médicos gerindo tal mudança? Eles precisam estar em tais regiões primeiro! Orientando a mudança! E se for para ter um estrangeiro fazendo isso prefiro um que tenha identidade latina, de nossas luta, de nossos problemas.
E agora que o governo cedeu? O que irá acontecer? A pergunta voltou aos médicos que foram para as ruas! Não serão mais os cubanos, serão os portugueses e espanhóis, então acabou o problema? Ficaram mais aliviados? Se for assim toda a manifestação nas ruas que a mídia ficou divulgando não era uma manifestação dos médicos pela saúde, mas uma manifestação política contra Cuba! E os médicos nacionais? Vão continuar onde estavam, enquanto outros estrangeiros podem ir para as regiões brasileiras sem médicos. Fica tudo do modo que estava. E depois não vai adiantar falar que foi tudo culpa do governo, pois o tal "gigante acordou" e foi para as ruas ajudar tudo a ficar no seu devido lugar. Detesto a imagem do gigante que acorda. O gigante é sempre nas histórias uma força destruidora, quase sem cérebro, que sai quebrando tudo sem saber bem o motivo, algumas coisa até mesmo sem ver direito devido ao seu tamanho. O gigante nunca é a imagem do construtor do novo, mas é a força primitiva destruidora que nos arrasta para o estado anterior, que arrasa tudo. Esse tipo de gigante eu gostaria de ver fora das ruas, cedendo espaço para o povo e suas necessidades.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O que muda com a derrota da PEC-37?

Nada muda obviamente. Os dispositivos constitucionais não foram alterados, as atribuições não foram definidas, então fica tudo como já estava. Somente o Ministério Público é que passará a ficar sob os holofotes das manifestações. Receberam seu apoio, a PEC-37 foi derrubada, então agora resta a expectativa: o que o MP vai fazer de fato! E o que se espera é que atuem em causas diversas, não somente nas que os colocam na primeira página dos jornais. A pressão das ruas é difusa, recai sobre os três poderes da República, então resta ver como vão se comportar. Principalmente o Judiciário, que não é eletivo! Sim, o Executivo e o Legislativo podem se dobrar ao peso dos votos, mas o Judiciário não é eleito, são concursados, tem estabilidade, são vitalícios. E dentro do Judiciário existem aqueles que se comportam como senhores absolutos da lei, agindo contra ela muitas vezes (lembrem do caso de Pinheirinho...). Não é uma casa de santos e abnegados servidores e o Judiciário é muito maior do que juízes e advogados. Existem vários servidores técnicos ali também. Como será então agora? As manifestações vão cobrar os funcionários públicos? Pedir o fim da morosidade? Vão cobrar honestidade dos empresários? Vão cobrar honestidade uns dos outros? Sempre digo aos meus alunos que a questão a ser resolvida começa em casa e passa pelos seus vizinhos. Não adianta ir na manifestação e depois pedir para o professor dar um "forcinha" naqueles dois pontos da prova! Não adianta querer ética e buscar aquele médico para um atestado fajuto! Querer ética e depois entregar um trabalho copiado da internet ao professor! Reclamar da situação e não querer pagar a empregada doméstica! Em suma: não adianta gritar que você quer mudanças e no seu cotidiano continuar agindo para forçar tudo a voltar ao seu antigo lugar!
Por tudo isso espero que o MP se sinta pressionado, que de fato assuma o papel que as ruas estão pedindo. Isso significa, entre outras coisas, avançar nas investigações de corrupção que envolvem partidos da oposição (que antes eram governo), PSDB, DEM, que simplesmente não aparecem em lugar nenhum! E espero que depois signifique avançar forte e investigar a sonegação fiscal das empresas e a situação trabalhista de seus funcionários. Por que pressionar aqueles que são eleitos pelo voto popular não é o mais difícil, conforme as pessoas parecem estar aprendendo. O difícil é fazer a lei que se ganha no grito se tornar realidade cotidiana.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O congresso, o supremo e essa tal democracia...

O problema dessa indignação todo com a proposta do congresso de fiscalizar algumas decisões do supremo é que as pessoas estão falando como se o judiciário fosse uma casa imaculada, de pessoas que estão ali somente por competência e que representam os interesses do povo. O judiciário brasileiro é um reduto assumidamente aristocrático, ao qual o povo não tem acesso. O Supremo não é diferente. São corporativistas e julgam conforme seus próprios interesses políticos, todos eles fazem política. Só que não possuem mandato popular! O difícil na democracia é aceitar a vontade da maioria sem cair nessa história de chamar o povo de "povão" para desqualificar justamente a participação popular! Sim quem usa o termo "povão" desse modo desqualifica a democracia e fortalece o autoritarismo aristocrático! Pensa que a vontade do povo é boa desde que seja igual a dele, "elite iluminada"! O judiciário precisa sim ser fiscalizado. Falam tanto em democracia, então que tal ficarmos indignados por não podermos eleger nossos promotores e juízes? Isso ocorre nos EUA. Imagina um juiz de uma cidade qualquer ter que vir a público pedir voto mostrando que em seu mandato os processos todos foram encaminhados e os interesses dos fazendeiros da cidade não tiveram prioridade? E lembro que saiu nesta semana mesmo uma pesquisa mostrando que a nossa população não acredita nas leis e nem no judiciário. Por que? Qualquer um que tem um processo parado na justiça por mais de uma década sabe. Procure alguém que trabalha na justiça e verifique quantas vezes por semana boa parte dos juízes vai trabalhar... Já é tempo de pararmos de pensar com essa mentalidade de que existe uma elite iluminada no judiciário (ou em qualquer outro lugar da sociedade...), coisa do período imperial, que mandava chamar de doutor quem nunca defendeu tese acadêmica! Isso não quer dizer que o congresso seja grande coisa, mas pelo menos lá temos a chance de mudar alguma coisa de quatro em quatro anos. Lembram do caso de Pinheirinho? Um juiz de São José cancelou um liminar do Supremo e permitiu a violência da desocupação. Em minha opinião fiscalizar o Supremo é pouco! O povo deve ter o direito de fiscalizar e participar de todos os nossos poderes. Na confusão da disputa política do congresso pelo menos temos um partido fiscalizando o outro, com todos os limites que conhecemos, mas no judiciário nem isto! Um juiz não fala nada sobre outro por pressuposto ético corporativo. Enfim, cuidado com um discurso pseudo iluminado e democrático, mas que esconde o velho argumento aristocrático (e positivista!!!) de que a parte mais esclarecida da sociedade é que deveria ditar as regras! Querem ver suas ideias em vigor? Convençam o povo! Vão até ele! Sujem os pés no barro dos assentamentos, quilombos e plantações. Andem pelas periferias, entrem nas escolas públicas! Saibam o que de fato esse povo pensa (e descubram aquilo que vários pesquisadores de ciências sociais já descobriram...). Cheguem onde as redes sociais não chegam! Sim!!! As redes tem o alcance limitado de quem pode pagar pela internet e também de que por aqui podemos ler somente o que nos interessa (imagino, por exemplo, que muitos já desistiram do meu texto neste momento...). Cansativo? Quem falou que o exercício da democracia é fácil?

sábado, 20 de outubro de 2012

Crenças e deduções


Já que basta acreditar para condenar quando temos tal poder (como o julgamento tem demonstrado) deixe-me dizer aqui o meu credo:
- creio que FHC, Serra e demais PSDBistas compraram os votos da emenda da reeleição, tal como denunciado pelos jornais da época;
- creio que PSDB e seus aliados levaram muito dinheiro com a privatização de nossas estatais, tal como denunciado pelos jornais da época;
- creio que o mensalão do DEM e do PSDB, por ser mais antigo, com certeza movimentou muito mais dinheiro do que o visto até agora;
- creio que, seguindo a lógica de que não possível que o chefe não saiba o que faz o subordinado, devemos condenar todos os militares que estavam na ativa durante a Ditadura Militar e que portanto foram coniventes com as torturas, mortes e desaparecimentos;
Poderia prosseguir, mas falta paciência. Até agora nada indica nossa mudança de rumos, mas apenas o de sempre: o judiciário sendo utilizado para interesses políticos (quando não é de um lado é do outro). Finalizo dizendo que também creio que houve movimentação ilegal de dinheiro no caso agora em julgamento. Mas ninguém comprovou que efetivamente algum voto foi comprado, tal percepção é crença, dedução feita através de uma perspectiva política. É uma pena. Mas queremos mesmo uma justiça que trabalha na base da crença e das deduções?

Inspirado por artigo de Marcos Coimbra.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Dirceu e o direito

Já sei que logo vai aparecer alguém perguntando como tenho coragem de defender o Dirceu!!... Não estou aqui para defendê-lo, mas para pensar no significado da justiça no "estado de direito" moderno. A justiça pode condenar com base no argumento de "não é possível acreditar que ele não fez parte"? Se a justiça virou questão de crença, de acreditar em uma possibilidade argumentativa e não no que as evidências apontam, abandonamos então o direito formalmente racional, arduamente construído, para nos apegarmos ao direito materialmente irracional (conforme a genial e esclarecedora tipologia weberiana), onde reinam as afinidades e interesses políticos. Testemunhos sempre serviram como provas na aplicação da justiça... Mas isso antes de existirem computadores, gravadores, internet, câmeras de segurança, dna! E o motivo é simples: as pessoas mentem! A história do direito está repleta de falsos testemunhos dados em nome dos mais diversos interesses.
Por isso comento aqui o caso de Dirceu. Não por acreditar cegamente que seja inocente, afinal já afirmei que a mentira é uma característica humana. Mas para lamentar a transição para uma justiça materialmente irracional. A presunção de inocência e o ônus da prova que cabe a quem acusa possuem um significa profundo, que não se enquadra na afirmação "não é possível acreditar...". Justamente pelo fato de que todos podem mentir é que a Justiça, que pretende ser isenta, precisa verificar o que dizem as provas, não somente o que afirmam as pessoas. E hoje existem recursos diversos que podem ser empregados. Se ao final tudo se resumir em uma questão de interpretação das provas, uma questão de opinião portanto, o preceito é o favorecimento do réu. E nada disso significa afirmar categoricamente que o réu é inocente, mas simplesmente que não foi possível condená-lo, pelo menos sem alterar a lógica da própria lei.
Diante desse quadro espero somente que a justiça mantenha-se coerente e siga o mesmo preceito no julgamento do PSDB e do DEM, confirmando que se trata aqui da aplicação literal da lei, da manutenção de sua lógica formal racional, ou pelo menos materialmente racional. Caso contrário estaremos diante do tal materialismo irracional, que muda conforme o réu e os interesses em jogo, fato que somente alimenta o argumento do julgamento político e não da busca por uma mudança de rumos. E devemos tomar cuidado: o direito aplicado conforme uma lógica materialmente irracional abre caminho para outra lógica, a de que os fins justificam os meios, o que sempre é temeroso.
Por isso afirmo que ainda falta muito para a nossa justiça me convencer de que algo realmente mudou, mas estamos no momento de acompanhar e cobrar tal mudança.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Adversidades e superações: Olimpíadas

Os eventos com atletas brasileiros nas Olimpíadas, acusados e terem "amarelado" e de inventarem desculpas para não terem conquistado medalhas, também me chamaram a atenção. Vários são os fatores levantados pelos atletas, de elementos técnicos como o já famoso vento, até a ausência real de apoio e estrutura. São fatores reais. As empresas brasileiras realmente não investem tanto quanto poderiam em nossos talentos esportivos, o que na verdade não difere muito do posicionamento das mesmas no que se refere ao sustento de outras atividades, como a pesquisa a científica, que permanece sendo realizada quase exclusivamente nas universidades públicas. No esporte não é diferente: se o governo não oferecer a tal "bolsa atleta" muitos vão passar a vida esperando um patrocínio que não vai chegar das empresas.
Mas também é verdade que os atletas que estão nas Olimpíadas chegaram lá, apesar de todas essas adversidades. Como o caso dos dois irmãos que chegaram à final do boxe. Origem absolutamente humilde, cresceram sendo treinados pelo pai socando as bananeiras do sitio em que a família ainda vive. Algumas vezes precisavam jantar na Igreja que servia um sopão pois em casa não havia comida. E chegaram nas Olimpíadas. Que fatores determinaram o sucesso deles e o fracasso dos outros? Tudo que for dito será especulação. O esporte também envolve sorte e ela algumas vezes é determinante. As críticas surgem pois as pessoas não querem ver a lamentação das nossas mazelas nas Olimpíadas, afinal todos as conhecem e sabem que são verdadeiras. Ao ligar a TV querem ver o empenho máximo, a superação das adversidades, ainda que seja para terminar caído pela força do vento. É a resposta que podemos dar contra uma situação geral que foge ao nosso controle, que insiste em reproduzir a pobreza e as desigualdades.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que é importante e passou batido...

Antes de mais nada devo dizer que não tenho nada contra o futebol ou a realização da copa do mundo no Brasil. Gosto do clima geral de confraternização, combinar com os amigos para assistirmos os jogos, enfim! Mas é impossível não comentar o que aconteceu nessa semana com relação a Lei Geral da Copa. O governo estava com dificuldades para aprová-lo até que finalmente conseguiu entrar em acordo com a oposição, particularmente com a chamada banca ruralista. A moeda de troca? Em troca da aprovação do estatuto da copa o governo deverá acelerar a votação do novo Código Florestal ainda para o mês de abril. São as prioridades invertidas! A Copa do mundo não vai afetar a vida das gerações futuras de brasileiros, o Código Florestal vai! Ao mesmo tempo estão aprovando a suspensão do Estatuto do Torcedor durante a Copa para permitir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios durante o evento! Suspender a lei em função de um evento? Parar de discutir o novo Código Florestal para permitir a realização de um evento esportivo? Não consigo achar normal! Ao mesmo tempo o Supremo definiu que somente o teste do bafômetro ou exame de sangue poderá ser utilizado para definir se um motorista estava dirigindo embriagado, mas como ninguém pode ser obrigado a realizá-los (a pessoa não é obrigada a produzir provas contra si mesma) na prática beber e dirigir foi legalizado! Coincidência ou tendência? Mas parece que estão todos satisfeitos. Ninguém da grande mídia "democrática e livre" apareceu indignado nos editoriais. Tudo em nome da diversão.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A luta por um ensino de baixa qualidade


É isso mesmo. Nada acontece sem que um número considerável de pessoas se esforce bastante. Com a educação não seria diferente. Apesar de tudo que lemos e ouvimos sobre a luta pela melhoria na qualidade da educação o que os professores vivenciam revela na verdade um movimento forte no sentido oposto. Deixe-me apresentar alguns elementos que indicam a realidade da luta silenciosa contra o ensino de qualidade no Brasil.
Primeiramente devemos lembrar de um tempo onde os professores eram vistos com respeito, sua autoridade como portador de um saber era reconhecida e os salários pagos não eram aviltantes. Tal tempo pode ser localizado em qualquer momento anterior à década de 1970. Não vou detalhar aqui o desmonte sistemático do ensino público em nome de uma suposta qualificação para o mercado de trabalho. Mas os salários se tornaram cada vez menores e as greves cada vez mais frequentes. E a população, no geral, nada fez. Quem podia pagar passou a colocar os filhos em colégios particulares que passaram a se apresentar como guardiões de um ensino de qualidade. Para os professores esses mesmos colégios passaram a ser vistos como locais onde poderiam trabalhar tendo uma melhor remuneração. Mas o golpe fatal na qualidade de ensino já havia sido dado e os seus efeitos deletérios não podiam ser barrados. Ganhando muito menos os professores passaram a preencher seus dias com aulas e mais aulas, tendo portanto cada vez menos tempo para as necessárias atualizações, preparação das aulas e correções das avaliações. Por sinal são as avaliações que sofrem a maior parte das pressões cotidianas da parte dos que lutam por um ensino de baixa qualidade.
Claro que houve resistência dos professores! Mas é ai que entra o próximo elemento: os pais. As relações dos pais dos alunos com os professores já foram mais respeitosas. Mas a necessidade de preparar os filhos para a acirrada competição do mercado de trabalho levou a equívocos no que se refere ao papel da família na educação dos jovens. Ao invés de lutarem para que seus filhos aprendessem cada vez mais passaram a reclamar do que lhes era cobrado. Se a criança apresentava alguma dificuldade o problema era apontado nos professores, que afinal estavam sempre reclamando que recebiam muito pouco... Quem participa de uma reunião de pais hoje certamente já deve ter visto pessoas que reclamam que o material didático é muito difícil, que o professor fala difícil, que as provas são muito difíceis... Alguns chegam a dizer que não entendem o conteúdo da disciplina do professor como uma espécie estranha de prova de que o problema não é do aluno! E os alunos (outro elemento dos meus argumentos)? São jovens e aprendem rapidamente que reclamar dos professores para os pais é muitas vezes o melhor caminho para garantir aquele “trabalhinho extra”! E ai do professor se ousar corrigir adequadamente os tais trabalhinhos! Ai do professor se descobrir que o tal trabalhinho foi copiado de alguma fonte na internet! Nunca vi algum pai de aluno brigar com a escola para seu filho ter mais aulas de determinada matéria! Ou então para que seu filho leia mais de um livro por mês (quando a escola consegue que seja lido um livro por mês!). Para que as avaliações sejam feitas de modo a desafiar o aluno a que cresça. São dois elementos essenciais da luta pela baixa qualidade de ensino: a minoria de pais que reclama da “exigência excessiva” dos professores e a maioria que não reclama, mas também não se posiciona abertamente de maneira contrária.
O último elemento fica com o Estado e os donos das instituições particulares. Tivemos recentemente um grupo de prefeitos se organizando em uma manifestação contra o piso nacional para os professores! Contra!! Um piso sugerido de R$ 1.451,00 para os professores com carga de 40 horas semanais! Quarenta horas!! É com tal salário que esperam que os docentes paguem suas despesas e ainda leiam jornais, revistas, façam cursos, comprem livros, assistam filmes, peças de teatros, frequentem exposições, tudo para que estejam sempre atualizados! Que dizer da maioria das instituições particulares? Preocupadas em não perder a clientela e orientadas pela lógica de mercado atuam segundo a velha norma de que “o cliente tem sempre razão”... Mesmo quando não tem! Vale mais a reclamação do cliente, o pagador. Qual é o professor que nunca ouviu ou conhece alguém que ouviu a seguinte frase: “os alunos estão reclamando”, para descobrir que na maior parte dos casos o plural escondia que se tratava apenas de um pequeno grupo ou até mesmo de um único aluno?
Qualidade de ensino? A maioria das pessoas não tem mais como medi-la! Temos todo um conjunto de gerações que simplesmente não conhecem um ensino realmente de qualidade, pois ele desapareceu já faz algum tempo da maior parte de nossas instituições de ensino, sejam elas públicas ou particulares. A gritaria de alguns para que a qualidade seja diminuída aliada ao silêncio da maioria já fez seu estrago. Foi Gramsci que nos falou que para se conquistar a hegemonia em uma sociedade não é necessário que um grupo seja de fato majoritário, bastando que consiga se colocar como representante dos interesses coletivos. A inação da maioria gera efeitos tão danosos quanto a ação da minoria. E serve para voltarmos a minha ideia principal, a de que está um curso um movimento para que a educação tenha uma qualidade cada vez menor. Um movimento sem bandeira, sem lideranças, sem uma feição pública, sem uma pauta evidente de reivindicações, mas que avança gradualmente, tendo como oposição apenas os lamentos silenciosos e solitários dos docentes que ainda acreditam na tal qualidade de ensino perdida.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Passado e presente

Matéria da Globonews veiculada em janeiro (2012) discutiu o abandono de monumentos históricos no Brasil. Uma das imagens da reportagem, entre tantas, mostra um sem teto utilizando uma estátua como banco para fumar um cigarro. É o retrato da nossa nação. Não se trata somente do Estado que não atua na conservação dos monumentos, ou mesmo da população que não auxilia na sua preservação. Estamos diante do resultado de um processo histórico de abandono da nossa população. É o abandono da educação, com a redução das aulas de história e demais ramos das humanidades, justamente as disciplinas que lidam mais diretamente com a percepção da construção de nosso patrimônio social e cultural comum. Os livros de história já não apresentam descrições detalhadas dos eventos, sendo um apanhado de fatos explicados resumidamente, bem ao estilo da linguagem rápida das redes sociais, supostamente com a justificativa de assim atrair os mais jovens. Mas o erro é evidente: a linguagem das redes sociais não pretende criar identidade, mas atrair uma atenção instantânea e fugaz. Não é o tipo de atenção capaz de fortalecer os laços de pertencimento à uma realidade histórica.
É também o abandono geral da população. Sem educação, sem emprego, sem perspectiva. E mesmo os que estão empregados estão abandonados à baixa remuneração, tema que parece não mais fazer parte do noticiário nacional. Como esperar que essa população se importe e se identifique com monumentos de um passado cúmplice de tudo que hoje vivem? Vimos a rápida reconstrução do Japão após a tragédia do terremoto seguido por um tsunami, além do vazamento nuclear. No mesmo tempo vemos que as cidades atingidas pelas chuvas do ano passado continuam do mesmo jeito, agora correndo novos riscos com as chuvas. Dinheiro houve. Mas também houve o desvio e a fraude. Monumentos do passado? São nomes de personagens que poucos realmente conhecem. Mas não são somente as classes populares, reféns do ensino público sistematicamente destruído, que abandonam o passado. As elites também. Preservam o que interessa e parece inofensivo. Mas não desejam que o resgate cotidiano da história cumpra seu papel reparador, de compensar os muitos que sofreram para que poucos se sobressaissem. Sim! Conhecer o passado é saber o que precisa ser feito para melhorar o presente, buscando a tal justiça social. Quando ela chegar, e esperemos que chegue, teremos então condições de olharmos para nosso passado e nos orgulhamos do muito que progredimos e dos que contribuíram verdadeiramente para tanto.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Nenhuma palavra dos defensores da "liberdade imprensa"

Saiu o livro de Amaury Ribeiro,  "A privataria tucana",  sobre a corrupção do governo FHC nas privatizações, envolvendo inclusive o nome de Serra,  que por sinal fez tudo que estava ao seu alcance para impedir a publicação. Onde estão agora os defensores da liberdade de imprensa? Todos que gritaram e levantaram suas vozes contra o PT e a discussão da lei de imprensa? Quero ver outro editorial do Estadão defendendo a ética na política, o voto em Serra e, claro,  a luta contra a censura. Quero um editorial indignado no Jornal Nacional defendendo a liberdade e informação. Onde está a Veja até agora? Paladinos da liberdade de imprensa! Estamos bem arranjados!

domingo, 8 de maio de 2011

Bodas e assassinatos

E por onde começar? Vamos pela tal "onda de democracia" no Oriente Médio, começando pelo Egito, onde muito se falou sobre o papel das redes sociais na mobilização popular. Elas realmente tiveram um papel, de facilitar a comunicação entre uma parte dos manifestantes. Mas o movimento aconteceu pois a população como um todo, não somente os ligados nas redes, estavam insatisfeitos com o governo. Existiram então os conflitos mas essencialmente o presidente não tinha apoio de ninguém para ficar no poder. Logo começaram a falar da expansão do movimento para outros países, a tal onda democrática. Esqueceram somente que os processos sociais não funcionam dessa maneira. Países diferentes, povo diferente, interesses diferentes e temos a crise na Líbia, com um país fragmentado. Lá o movimento não teve, desde o começo, a mesma dimensão do ocorrido no Egito. Mas a onda atende a interesses de vários tipos, principalmente econômicos em ima região de petróleo. Vimos então a morte de Bin Laden, provavelmente assegurando ao Obama o segundo mandato que antes parecia ameaçado. O Obama que surge após o assassinato de Bin Laden é muito mais interessante para uma parcela da população norte-americana, aquela de essência conservadora mas sem uma definição definitiva pelos Republicanos. Ninguém mais pode duvidar da disposição ao uso da força em seu governo e de maneira mais eficiente do que nos tempos furiosos do republicano Bush, que dividia o mundo entre bons e maus... E tudo ocorreu, pelo menos na mídia, logo após o casamento do príncipe inglês! Difícil crer que os ingleses, aliados de primeira hora dos norte-americanos, não sabiam realmente de nada. O casamento revigorou a combalida monarquia inglesa, o assassinato fez o mesmo pelo governo democrata de Obama. Enquanto isso o Oriente Médio continua tentando se adaptar aos sentidos da democracia ocidental.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Combatendo os faraós

Chamou a atenção na crise do Egito uma notícia sobre "saques" ocorridos no Museu Egípcio. Em meio às manifestações populares para que o presidente Hosni Mubarak, que governa o Egito há 30 anos, saia do poder um grupo de pessoas invadiu o museu. Não saquearam nada como a matéria divulgada pela Reuters sugere no título, mas destruíram duas múmias.
Interessante simbolismo! Assim como o atual presidente do Egito os faraós também permaneciam por anos no poder... O povo nas ruas pede a saída do presidente e ao mesmo tempo decide atacar as múmias no museu, que lembram a estrutura social de uma sociedade em que o faraó mandava e os demais obedeciam, em que aqueles que podiam pagar pela mumificação teriam assegurada a vida eterna, enquanto aos demais restava o trabalho.
O presidente do Egito está no poder há 30 anos e confesso que somente agora vejo o noticiário abordar tal fato como um problema capaz de gerar descontentamento na população, em atritos que já mataram pelo menos 73 pessoas.
É realmente um mundo de pesos e medidas diferenciadas de acordo com os interesses políticos e econômicos dos mais fortes.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ignorando a ciência

Quem já fez uma reforma grande ou construiu uma casa vai provavelmente identificar esta imagem: as paredes são erguidas e rebocadas, então é feito o chamado "recorte" (em que a parede novinha é quebrada...) para passar fios ou mesmo algum encanamento nas paredes. Obras mais recentes, quando feitas sob supervisão de engenheiros e pedreiros qualificados, não realizam tal procedimento. Os canos e fios já são planejados previamente, de modo que não é necessário quebrar as paredes depois de prontas, economizando muito material.
A situação anterior é o retrato de algo que falta no Brasil: planejamento que leve em consideração as contribuições da ciência. Pois existe ciência aqui e, se procurarmos bem, também existem planejamentos dos mais diversos. Mas falta o diálogo entre ambos. Falta também que sejam considerados com maior seriedade. Existe um certo sentimento de que os cientistas são aqueles que fazem teorias que muitas vezes não possuem qualquer finalidade. Que os cientistas não se preocupam com a prática, com a ação que, no final, é o que realmente faz as coisas acontecerem. A maioria da pessoas que vão construir um imóvel não procuram um engenheiro desde o começo da obra. Vão procurar o pedreiro, que tem a experiência em construir. O engenheiro, profissional qualificado pelos conhecimentos científicos, aparece somente como a pessoa que precisam pagar para assinar uma planta no caso de regularização da construção (que muitas vezes não é feita).
A situação se repete com profissionais de vários outros campos. Cientistas Sociais produzem diversos conhecimentos sobre a nossa sociedade, mas dificilmente eles serão considerados no momento de elaboração das políticas públicas, definidas ao sabor dos favorecimentos e interesses políticos. Lembro de uma cena do primeiro "Tropa de Elite", quando o personagem Matias elabora um mapeamento estatístico das regiões da cidade que precisam de policiamento mais intensivo, mas que é descartado como algo inútil pelo oficial responsável. Mesmo considerando-se a presença de interesses políticos e econômicos tal situação também retrata o lugar reservado para o conhecimento científico em contextos de corrupção.
Podemos ver o mesmo acontecer na educação, onde a situação fica ainda mais exemplar. Os professores são profissionais que receberam qualificação universitária (claro que ainda temos exceções por conta de situação caótica da educação pública) e que atuam na prática, ou seja, receberam os conhecimentos científicos e atuam na sua transmissão. Exercem uma função que é teórica e prática (ainda que muitos acreditem que não). Mas não são eles os consultados no momento da elaboração das políticas públicas de educação. Torço aqui para que o discurso de posse de Dilma se concretize (ela afirmou o seguinte: "Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso com a educação das crianças e jovens.").
E temos as chuvas, mais uma vez, gerando imagens dramáticas que todos os anos desejamos que não voltem a acontecer. Mas o tempo passa e chega um novo Janeiro e com ele a repetição. Não vou falar sobre os usos e ganhos políticos da rotina das tragédias no Brasil. Mas tudo que se falou até agora sobre os deslizamentos das encostas de montanhas é repetição do que foi dito e explicado no ano passado com as mortes em Angra dos Reis. Terrenos instáveis que não deveriam jamais ser ocupados ou alterados pelo homem. Alertas da meteorologia que mesmo quando emitidos não desencadeiam ações capazes de minimizar as mortes.
Tudo se relaciona. O descaso com as informações técnicas e científicas e o desempenho de nossos estudantes. Um ensino precário formará profissionais precários que não conquistarão a confiança geral. É um ciclo que só pode gerar catástrofes. Romper esse e tantos outros ciclos problemáticos é o desafio que não podemos adiar. Ou então teremos outros Janeiros de tragédias anunciadas.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O salário do professor e a qualidade da educação

Interessante como alguns temas rodam e rodam somente para acabarem batendo em soluções já conhecidas. Uma das conclusões a que os organizadores do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) chegaram é a de que os países que gastam muito dinheiro em educação, principalmente na qualificação e remuneração dos professores, são os que alcançam os melhores resultados. Palmas! Confirmaram com dados quantitativos e qualitativos aquilo que tem sido a pauta principal da luta dos sindicatos de professores no Brasil por décadas! Outra informação interessante a que chegaram com o Pisa é de que o número de alunos por sala não é tão importante quanto a remuneração do professor no que se refere à qualidade de ensino. Também não é nenhuma novidade. Há muitos anos que os melhores colégios particulares do Brasil possuem salas lotadas e professores que recebem de três até cinco vezes (em alguns casos mais) os salários de seus colegas do ensino público (e também de muitas particulares). Mais interessante é a frase de Daniel Cara, citada em matéria do portal UOL . Ele é coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação: “O grande caminho agora é incentivar a renda das famílias. Quanto maior a renda, maior a escolaridade”. Novamente a questão da remuneração, que nos leva para um tema já não tão intensamente presente nos debates contemporâneos: distribuição de renda. É preciso que o brasileiro passe a ganhar mais. E não se trata somente de uma questão de aumentar o salário mínimo. Precisamos mesmo é romper com a desvalorização histórica do trabalhador em nosso país e entender que o salário mínimo não deve ser definido como o salário máximo! Ele é o patamar menor da subsistência! Não adianta esperar que os professores se comportem como religiosos cumprindo uma missão! São seres com necessidades. Trabalham por que gostam da profissão, mas também precisam pagar suas contas. Se as aulas em uma escola não bastam para tanto vão precisar buscar por mais aulas em outras. Se dar aulas pela manhã não é o suficiente vão ocupar as tardes e as noites. E não se iludam: o professor que trabalha nesse ritmo ainda não vai conseguir ganhar o mesmo que o professor dos nossos melhores colégios (já escrevi sobre isto aqui no Blog ). Ocupa todo seu tempo com aulas e acaba sem tempo de prepará-las e de se reciclar. Também acaba sem tempo para a própria família. Sim, os professores possuem famílias para sustentar! Infelizmente, como todo trabalhador sabe, não é possível fazer isso somente com boas intensões e muita vocação.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Educação: Brasil e França

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do seu Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). O Brasil comemorou os resultados e a França deplorou. Por aqui conseguimos subir de pontuação em leitura, ciências e matemática, com os seguintes números (pela ordem): 412; 405; 386. O objetivo era superar a barreira dos 400 pontos, daí a comemoração. Mas é preciso entender bem o real significado da tais pontuações:
  • leitura - metade dos brasileiros atinge somente o nível um estabelecido na avaliação. Isso significa que conseguem identificar somente informações explícitas nos textos e estabelecer algumas relações com seu contidiano. Não conseguem extrapolar, estabelecer relações com outras fontes de informação e nem mesmo encontrar outras informações menos evidentes. É aquilo que todo professor conhece: o aluno que só é capaz de encontrar uma resposta se ela estiver estampada em letras garrafais no texto, que não consegue interpretar realmente aquilo que leu.
  • matemática - temos que 69% de nossos estudantes estão no nível um também. Não conseguem ir muito além da matemática básica, apresentando grande dificuldades para lidar com as fórmulas ou os conceitos matemáticos. São capazes então de fazer as contas elementares, mas não conseguem lidar com nada mais elaborado (incluído aqui a regra de três...).
  • ciências - novamente temos metade dos alunos no nível um (54,2%). São alunos que não conseguem empregar a disciplina no seu cotidiano por realmente não a compreenderem. É o mesmo caso da habilidade de leitura: podem até encontrar a resposta da pergunta se ela for bastante evidente, mas não entendem realmente o seu significado.
Já os estudantes franceses obtiveram a seguinte pontuação: 496 em leitura; 497 em matemática; 498 em ciências. Por lá estão preocupados pois houve uma queda dos resultados dos alunos. Também ressaltam que os dados revelam que a educação na França não tem cumprido com seu papel de promover a ascensão social e de minorar as desigualdades. É isso! Claro que não temos como comparar duas realidades tão distintas como a brasileira e a francesa diretamente. Estamos lutando para chegar na marca dos 400 pontos e ainda nos falta muito para consolidar tal posição. Mas mesmo quando estivermos lutando para chegar na marca dos 500 pontos (o que espero que possa ocorrer nos próximos anos) teremos muito ainda por resolver. A educação é um caminho para a ascensão social e para o desenvolvimento, mas sozinha não faz milagres.
Se por um lado devemos ficar felizes pelo crescimento obtido não significa que devemos começar a celebrar. Não chegamos ainda na média definida pela OCDE (que gira em torno dos 500 pontos para cada conjunto de conhecimentos). Se demos passos importantes nos últimos anos eles foram certamente o início da tudo que ainda temos por fazer. Se queremos uma saúde melhor, uma economia melhor, serviços melhores, devemos ter profissionais melhores, com uma formação adequada. Então o que os resultados do Pisa realmente nos dizem é que devemos trabalhar mais pois temos muito pela frente. Mas não é somente o trabalho realizado pelas escolas e universidades que vai contar aqui, mas aquele de toda a sociedade.

sábado, 13 de novembro de 2010

É mais fácil bater

O mais difícil no processo do nossa amadurecimento é aprender a lidar com os próprios limites e reconhecer as nossas falhas. A sociedade atual, mais do que nunca, é voltada para a aparência da perfeição. Não estou nem mesmo pensando na questão mais evidente do físico de qualquer pessoa, mas sim no seu crescimento intelectual. É realmente um fato que hoje temos acesso à uma quantidade enorme de informações sobre todos os assuntos. Mas cada vez mais para consolidar-se também que as pessoas não lidam com o conhecimento que buscam. Querem a informação rápida, resumida (como por sinal é a propaganda de algumas revistas...), que não vai tomar muito tempo para ser encontrada. Nem todos percebem que toda informação precisa de tempo para ser absorvida e que os resumos muitas vezes não carregam toda a verdade (em alguns casos nem mesmo aquilo que é realmente importante!).
Pensei nisso ao ver a foto da professora de 57 anos agredida por um aluno de 25 anos em Porto Alegre. O rapaz teria se irritado por ter tirado uma nota baixa na matéria da professora. Ao invés de procurar entender o que houve decidiu pegar uma cadeira e bater na professora, que ao tentar se defender terminou com os braços quebrados. Ela desmaiou. Não satisfeito em sua fúria o jovem, que também é instrutor de artes marciais, continuou seu ataque com socos e chutes, quebrando seis dentes de sua indefesa vítima.
A tarefa do professor não é fácil. Devemos transmitir conhecimentos aos alunos, empregar estratégias que facilitem o aprendizado. Mas não podemos fazer nada sem a ação dos alunos. É o aluno que precisa que precisa ficar atento nas aulas. E não se iludam! Mesmo quando ele não considera a aula "legal"! Pois não é possível ao mesmo professor agradar todos os alunos, ainda mais com jovens acostumados a mudar de programa e da página com um clique quando não gostam do que viram. É o aluno que precisa ler o que lhe foi pedido ao invés de ficar esperando que o professor explique todo o texto em sala e que ainda lhe envie o resumo da matéria em slides! Escuto de vários alunos que o professor só pode cobrar o que falou em aula... e O texto que ele pediu para ler antes da aula? A aula é o momento do diálogo, do debate, da retirada de dúvidas. Mas as dúvidas só podem existir se o aluno leu e estudou o que foi pedido antes! Quando o professor se depara com uma sala que não fez o que lhe foi pedido somente lhe resta voltar para o método tradicional: vai para o quadro e explica tudo... Depois ainda vai ter que ouvir que suas aulas não são interessantes! Vai ouvir reclamações sobre as notas e o desempenho dos alunos. E pode até mesmo ser agredido se houver algum destemperado em sua sala.